Ocasionalmente interessante

Por Pedro Guedes

Durante o Festival do Rio 2018


Basicamente concebido para funcionar como estudo de personagem, “A Camareira” é um filme muito mais de observação do que de trama: em vez de envolver o espectador numa narrativa com acontecimentos bem definidos em uma estrutura clássica, a diretora mexicana Lila Alvés prefere contemplar o cotidiano da personagem cuja função dá título ao longa, resultando em uma experiência analítica e emocionalmente distante, mas com um propósito para ser desse jeito. Em contrapartida, isso não justifica algumas irregularidades do filme, que torna-se interessante apenas em alguns momentos ocasionais e, no geral, revela-se mais arrastado que o ideal.

Dirigido e escrito por Alvés (cujo currículo inclui um curta chamado “Dèja Vu”), “A Camareira” enfoca o cotidiano de Eve, uma jovem mãe solteira que trabalha em um hotel e sonha em melhorar sua vida. Assim, ela se inscreve num programa de educação que envolve aprender a ler, se comunicar em inglês e fazer vários exercícios (físicos e mentais), mantendo uma rotina constante ao lado de Minitoy, sua melhor amiga (e também camareira do hotel). E o filme gira entorno disso: embora o roteiro até conte com a clássica estrutura dos três atos, o objetivo maior do projeto não está centrado em narrativa, mas em observação.

Apresentando alguns momentos memoráveis (como aquele onde uma mãe hospedada no hotel abusa do serviço de Eve e a trata com gentileza apenas para despistar cinicamente seu oportunismo), “A Camareira” serve como um exemplo perfeito de como a meritocracia é uma mentira propagada pela elite a fim de justificar o fato de que os mais pobres permanecerão deste jeito somente para que os privilegiados não percam seus privilégios.

Por outro lado, há várias outras sequências que pouco acrescentam à jornada da protagonista (como aquela onde ela resolve interagir com um faxineiro que a encara pela janela), o que resulta em uma experiência desnecessariamente longa e que, mesmo até tendo algo a dizer, chega bem perto de perder este “algo”.

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