Exercício pedagógico obrigatório

Por Vitor Velloso


A emancipação do corpo negro na sociedade nunca se concretizou, por questões diversas, o ódio é uma das razões, sem dúvida, porém, em qualquer escala este sentimento é fruto de uma profunda ignorância, não só política ou social, mas humana. É necessário dizer o ódio é um monstro metamorfo e que ele está presente em alguns seres humanos, com o perdão da palavra. Todos os genocidas da história são dotados de ódio, uns ainda não ascenderam ao status por falta de oportunidade, mas faz um tremendo esforço em fazê-lo, inclusive no Brasil. A gravidade de figuras assim no cenário midiático, não digo político, já que política não se faz com tributos a torturadores e à ditadura, justifica a urgência de “A Última Abolição”. Quando escrevo isto, levo em consideração que independente desta figura de hipocrisia aos próprios discursos religiosos estar presente nos meios de comunicação atuais, o documentário continuaria sendo de uma atualidade assombroso, pois, as frases: “Não existe racismo no Brasil” “De um tempo para cá que houve a separação entre brancos e negros” são de uma imbecilidade tão aguda que o exercício didático se faz necessário, por enquanto.

Dirigido por Alice Gomes, a aula de Brasil que recebemos na tela é digna de nota. Me refiro ao Brasil e não história do movimento abolicionista, ou negro, pois, parafraseando Baldwin e contextualizando, claro: “A história do Brasil é a história dos negros”. A proposta da diretora é criar um filme extremamente didático, tanto em seu discurso, quanto em sua forma. A ideia funciona muito bem graças a quantidade de informações disponibilizadas de maneira acessível. Ouvi alguém comentar que deveria fazer parte do currículo de ensino das escolas, sou obrigado a concordar totalmente. Ainda que algumas decisões estéticas não sejam tão agradáveis, por parecer de fato que estamos vendo uma aula sendo projetada, é impossível negar que esta é uma de suas forças. Ensinar a pessoas com um grau de ignorância único, requer um didatismo ainda mais acentuado.

Lembro-me de uma música onde o DK diz: “Cocielo fez piada, mas no beco ninguém riu Tava ensinando racismo pra um público infantil”. A importância de “A última Abolição” está exatamente neste conteúdo pedagógico, que irá esclarecer diversas questões sobre a negritude e todas as suas lutas, que ultrapassa a questão política, a resistência que é feita pela minoria étnica é intrínseca a sua história, sua batalha constante não é sobre qualquer coisa além de buscar emancipação de seu corpo e reconhecimento social. A forma como subjugaram o povo negro às periferias da cidade, também possui determinado tratamento durante o filme.

Algumas questões quanto à forma e a estrutura merecem uma atenção. Formalmente o longa busca uma abordagem que tenta escalonar todo seu pensamento através das entrevistas e imagens, de uma maneira quase construtiva, a diferença é sua abordagem imagética de fato, trabalhando com colagens, inserts e movimentos dessas respectivas imagens, dando a entender que estamos vendo uma grande aula em algum portal de internet. A observação possui duas faces, uns vão gostar, outros, não, cabe ao espectador sentir durante a projeção se a funcionalidade do artifício, de fato, conseguiu seu objetivo. Quanto à estrutura, ela se inicia de maneira muito veloz e solta, o que exigirá do público uma tentativa de acompanhar o ritmo da obra. Este sentimento de fragilidade na construção do pensamento e em suas transições se mantém ao longo da exibição, as informações vão sendo jogadas de maneira intensa e desordenada, me parece que a melhor solução para isso seria ter um corte maior, mas entendo que também diminuiria sua possibilidade comercial. Porém, a estrutura x tamanho da obra, deixa um ar desengonçado, que atrapalha a absorção de todas as narrativas. Para alguns este tom caótico pode significar uma opção formal.

No frigir dos ovos, a experiência é positiva e proveitosa, a postura que se mantém na tela é de resistência, mais atual impossível. Em tempos sombrios às minorias, é necessário que obras como essa passe nos circuitos com relativo sucesso, já que infelizmente sabemos que pra bombar no Brasil, deve-se ter escatologia, imbecilidade e algum Global representando muito bem a empresa.

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