Je suis… Chato?

Por Vitor Velloso


O cinema francês é um dos mais admirados pelo nicho cinematográfico aqui no Brasil, porém, pluralidade nunca foi um dos pilares dos franceses, à grosso modo. “Um Segredo em Paris” é o retrato da decadência do “regime do autor” que os comedores de croissant se auto-impuseram. Piadinhas e estereótipos à parte, uma grande parcela dos europeus se fecharam em um pensamento acerca da autoria, limitando suas obras à uma busca incessante por holofote no grande hall do Cinema (com C maiúsculo) ou no C mais cultuado pelos mesmos, Cahiers du Cinema. A mediocridade da postura se vê em diversas produções do país todos os anos, são obras que se padronizaram a fim de achar seu público, mas que esquecem a questão fundamental do que defendem, a originalidade surge diretamente da alma que se dispõe no processo criativo. Pensar estética pelo simples ato de pensar “le cinéma”, é fadar o exercício a nada além de fracassos consecutivos. Pior, irão culpar o público, alegando que eles não se importam mais com cultura e arte, quando na verdade eles estão condicionando os espectadores ao mesmo estilo massivamente. Uma hora não vai rolar meus caros.

A trama acompanha Viviane (Lolita Chammah), uma escritora frustrada e insegura. Após se mudar para Paris conhece Georges (Jean Sorel) e inicia uma história de amor incomum, pois ela não conhece seu passado e como ele se mantém dono de uma livraria que não vende nada. O moralismo alheio me obriga a revelar a idade dos personagens, já que a diretora decide trabalhar a discrepância em alguns diálogos de terceiros, além claro da postura e atitude de ambos. Ela possui 27 e ele 76. A concepção dessa história não é de fato um problema, aliás, algumas questões acerca das experiências de vida poderiam ter sido exploradas à medida que somos jogados no romance. Esse fato existe, não dá para negar, porém, a dimensão que isso se dá é pífia. Assim que o suspense em torno da personalidade e passado de Georges se inicia, torna-se o eixo dramático mais relevante da película. Sendo uma espécie de gravidade a todas ações do longa, estéticas e narrativas. A tentativa de desenvolver um drama-suspense no padrão que a indústria francesa consolidou ao longo dos anos, fragiliza a ideia inicial pelo simples fato de se forçar o tempo inteiro a remeter a pequenos maneirismos “Je suis française”.

Parte dos cineastas europeus atualmente não conseguem conceber que o caráter mais identitário que você pode ter é a misancene. Não trata-se de descartar a política de enquadramentos, uma perspectiva “X” diante da luz ou um movimento de câmera “Y’, muito menos do roteiro bem escrito, mas se você tem tudo isso com uma encenação problemática, é o Nolan. Misancene é o cerne da questão autoral, não à toa, podemos dizer que existe autoria em Béla Tarr, ainda que sua proposta estética seja muito próxima de outros diretores como Tarkovsky e Miklós Jancsó. Me sinto culpado por citar estes nomes na crítica deste filme, mas preciso me justificar contra alguns histéricos da Zona Sul defensores assíduos do direito branco de se manifestar pela baguete de cada dia.

A maior fragilidade de “Um Segredo em Paris” reside em seu drama central, pois, o grande esforço que se faz para consagrar o mistério por trás de Georges não compensa o público, já que na encenação não há um peso dramático que consiga sustentar a obra. Por este motivo, quando saí da sessão, escutei de muitas pessoas diferentes “O filme não funciona” “…não anda”. Os comentários não são isolados. As propostas não são totalmente ruins, o problema é que sua funcionalidade depende diretamente do trabalho que Elise Girard imprime na tela, e, infelizmente, é uma direção muito solta e frágil. Curiosamente, os atores tentam segurar as pontas do longa e até que freiam um desastre completo, seja por carisma ou interpretação funcional mesmo. Mas como a obra não vive apenas de atores, o resultado final é comprometido pela intencionalidade industrial que se propuseram em realizar. Se existisse alguma potencialidade no filme, a mesma morreu durante a pré-produção.

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