Curando o fogo com o fogo

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


Exibido no Festival de Cannes 2018, “Em Chamas”, que venceu o Prêmio da Crítica Internacional, Fipresci, é sobre o “incêndio” nosso de nossa alma a cada dia. Os seres humanos possuem uma “virtude”, controversa lógico, de se adaptar e aceitar as crises e as padronizações sociais. Somos imbuídos de uma necessidade de agradar aos outros em detrimento de nossas próprias felicidades. Mas o Universo sempre nos mostra o “caminho certo” pelo caos e pela confusão de nos tirar de nossas zonas de conforto. De nos bagunçar para que possamos mudar a condução de nossos quereres e vontades, como um GPS que redefine a rota.

É incrível como o outro tem tanto poder em nossas vidas e nossas decisões. De balançar nossas apatias resignadas. De dar vida a uma vegetação existencial. “Em Chamas” é sobre isso. Muito mais que uma história de amor, e tampouco sobre um relacionamento gay. É sobre o encontro com a própria essência. Com a própria vida. Com o próprio ser. De se rebelar com a condição em que se encontra. Para com outros, próximos e afetivos, responsáveis por causar autodestruições. A revolta precisa acontecer, no melhor estilo de “Dogville”, de Lars von Trier. Passar uma fase (ainda que politicamente incorreta e ilegal e criminosa) é totalmente e completamente compreensivo. E por que não obrigatória?

Durante um dia normal de trabalho como entregador, Jong-soo (Yoo Ah-In) reencontra Hae-mi (Jeon Jong-seo), uma antiga amiga que vivia no mesmo bairro que ele. A jovem está com uma viagem marcada para o exterior e pede para Jong-soo cuidar de seu gato de estimação enquanto está longe. Hae-mi volta para casa na companhia de Ben (Steven Yeun, que interpreta Glenn Rhee, da série zumbi “The Walking Dead”), um jovem misterioso que conheceu na África. No entanto, o forasteiro tem um hobby peculiar, que está prestes a ser revelado aos amigos.

Dirigido pelo sul-coreano Lee Chang-Dong (de “Poesia”) e baseado no conto “Queimar Celeiros”, do escritor japonês Haruki Murakami (particularmente influenciado pela cultura ocidental, traduziu obras de F. Scott Fitzgerald, Truman Capote, John Irving e Raymond Carver), “Em Chamas” também aborda a polarização do poder das classes sociais. Os que têm mais dominam e conduzem os economicamente desfavoráveis. É uma crítica a um sistema que potencializa a desumanidade para corroborar o ciclo financeiro.

O que poderia ser história de amor, da ingenuidade à maturidade, vai aos poucos se transformando em um radical thriller de confronto revolucionário, tudo em prol da própria sobrevivência, ainda que seja para eternizar e proteger o objeto da paixão incondicional. O filme foi escolhido pela Coreia do Sul para tentar uma indicação no Oscar 2019.

“Em Chamas” é sobre acordar de uma alienação. De não mais fugir da verdade. De dar vazão aos desejos mais instintivos, que denotam uma fuga do próprio ser. É admirar a projeção. O que o outro conseguiu. É expandir possibilidades, identidades, experiências. É entrar desengonçado e desconhecido no “jogo” daqueles que conhecem muito bem o jogar. É um filme psicológico. De fora para dentro. De análise cognitiva das infinitas sinapses da misteriosa mente humana.

É sobre uma geração perdida e com tédio demais. De um lado, a falta da perspectiva. Do outro, o excesso de que tudo é possível a qualquer hora e tempo. Cada um busca “algo que vibra em cada um dos ossos” para descansar e desligar a realidade. Um ainda tem medo das conquistas, o outro não se importa em perder nada. Tudo em uma narrativa que conjuga um realismo cotidiano com uma naturalidade mascarada de ficção. Quanto mais este protagonista “desacordado” abre os olhos, mais suas sensações são intensificadas, tornando-se mais humano, mais animal, com sua inveja e com suas consequências finais e fatais.

Celeiros podem ser áreas rurais para agricultores, mas também pode ser uma metáfora para “fontes” ou “nascedouros” de projetos e/ou outras finalidades. E o fogo um simbolismo a deixar para trás todas as culpas aprisionadas. “Em Chamas” arquiteta com primazia a técnica ambiente da tradução das sensações despertadas de seu personagem principal, principalmente pela fotografia de Kyung-pyo Hong. Em hipótese alguma é um longa-metragem ruim, pelo contrário. Mas seu roteiro abraça gatilhos comuns para que a história se desenvolva. É exatamente o que acontece no terceiro episódio da segunda temporada do seriado “The Affair”, pela frase “Se está tendo dificuldades com o final, é porque estragou o início”. Só que no caso daqui, o final, urgente e dogvilliano, soa mais gratuito do que uma real necessidade.

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