Pessoalidade Formal

Por Vitor Veloso

Durante o Festival do Rio 2018


Coragem é o adjetivo máximo para projetos cinematográficos como “Meu Nome é Daniel”. Realizar um retrato sobre qualquer pessoa é expô-la ao mundo, principalmente quando acompanha-se alguma jornada pessoal do personagem. Agora, quando o próprio diretor é o centro das câmeras e ele vai atrás da resposta às suas próprias limitações diante do mundo, meus parabéns.

“Meu Nome é Daniel”, dirigido pelo próprio Daniel Gonçalves, acompanha sua trajetória em tentar compreender e, quem sabe, diagnosticar a doença que ele possui. Sua deficiência o limita em caminhar e falar, mas sua vontade não se abala quanto a isso, aliás, na saída da sessão escutei um crítico dizer que “havia problemas demais no filme”, olha, eu conheço o autor do comentário, o mesmo não possui nenhuma deficiência e nunca realizou nada, diferente do diretor, logo, o silêncio lhe faria melhor. Não defendo a hipótese do longa ser infalível e perfeito, porém, devemos olhar a atitude como um ato artístico ímpar. Esse desejo de retratar sua história através do cinema, resultou em um dos projetos mais sinceros da década.
No início da projeção podemos vislumbrar o bom humor de Daniel, que nunca dirigiu no Rio de Janeiro, mas pega o carro e decide andar pelo que parece ser um estacionamento de shopping, após andar alguns metros bate com o carro, acontecimento já profetizado por sua mãe, que lhe alertou, porém, sua reação é brilhante: “Ih, bateu” e ri. O carisma que o protagonista emite é de uma química única, sua postura diante do mundo e de seus problemas são comuns às pessoas, ele erra, se estressa, é um ser humano como qualquer outro, inclusive, sua reação aos preconceitos que sofre são motivo de muitas risadas, sempre muito direto e sem trava na fala, responde à altura do problema que lhe impõem. Quando era criança, estava realizando uma peça, onde interpretava uma minhoca que permitia todas as flores crescerem. Uma mãe de algum colega diz: Tadinho. Ele responde: “Coitadinho é o caralho”.

Essa reflexão sobre sua atitude nos leva à linguagem que decide imprimir na tela, uma mescla de filmagens realizadas durante o processo do documentário, sobre sua tentativa de compreender a doença, junto aos médicos, e claro, construir um perfil psicológico aos espectadores. E utiliza-se de imagens de arquivo de sua infância e adolescência a fim de prolongar esse estudo de personagem, como explicitar as dificuldades que enfrentou a vida inteira. A funcionalidade desta ideia é impressionante. Nossa ligação com o que estamos acompanhando cresce de uma maneira tão progressiva, que próximo ao término nos frustramos junto com Daniel e torcemos com ele pelas respostas. Mais impressionante a maneira que se dá essa construção de linguagem e relação com o público, pois, além de se expor bastante, coloca a família de forma direta nos conflitos. O que exige das relações uma intimidade e contribuição dignos de nota.

Encantador ver o amadurecimento na forma de enxergar a deficiência, ao longo dos anos, e mais gratificante ver que nunca houve uma deturpação do ser humano, Daniel, diante da visão de qualquer membro da família, pelo contrário, havia um esforço em se adaptar à ele, não o inverso. A beleza dos momentos coletados pelos arquivos pessoais do cineasta dão uma alma própria ao filme. Exigindo do montador Vinícius Nascimento, uma seleção especial, pois são horas e horas de material de arquivo. Alguns aspectos podem saltar os olhos do espectador, por exemplo, o jeito como a progressão é dada na tela, parece bastante solto, o que pode vir a incomodar alguns, porém, é compreensível que o longa tenha ido por este caminho, já que o projeto se iniciou sem um fim em mente, até porque é exatamente sobre o momento final que a ideia surgiu, uma esperança.

“Meu nome é Daniel” é uma surpresa muito bem vinda ao momento atual do cinema brasileiro, sobretudo no campo do documentário, possuindo aspectos formais que merecem ser analisados. Até mesmo o tempo que é utilizado para dar esta linha de raciocínio, existe um esgarçamento temporal que gera uma lentidão necessária, visando que a platéia possa acompanhar todo o processo da feitura da obra.

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