Já chega dessa história

Por Gabriel Silveira

Durante o Festival do Rio 2018


Na sessão dupla de Domingo, que era aberta com a projeção de Universo Preto Paralelo de Rubens Passaro, encontrei-me desnorteado por completo com o sentimento de dissociação causado pela leitura justaposta das duas obras. Universo Preto Paralelo vem em míseros doze minutos atacar o espectador com a mais violenta violação da integridade emocional de um brasileiro. Com uma narrativa de arquivo tão enxuta, Passaro compõe um pequeno piscar da história da tortura política dentro da estrutura histórica oficial da nação. Vindo de um material gráfico descritivo de cartilhas de tortura de escravos, passando por relatos detalhados de vítimas da ditadura militar registrados em vídeo durante as sessões da Comissão da Verdade chegando ao clímax onde o diretor faz um jogo de raccord esquizofrênico com o discurso de Jair Bolsonaro na câmara durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff — onde o, agora, presidente eleito faz uma saudação ao criminoso torturador Carlos Ustra, torturador pessoal da ex-presidente. Passaro faz um ostinato audiovisual com a saudação de Jair que é experienciado pela platéia quase como um experimento de tortura chinesa, cada verbalização do presidente eleito parecia uma facada no estômago. Depois de ser liberado da agressão espiritual de Universo caímos de cabeça dentro da encenação de Domingo de Clara Linhart e Felipe Barbosa.

Não conseguia acreditar na dissonância diegética causada pelo surgimento de “Domingo” na tela. A energia gerada pela catarse subcutânea de Universo era suficiente para transformar qualquer ato de ativismo público em um estopim para uma guerra civil. Cair disso para um plano de abertura de dois minutos onde um caseiro idoso junta uma horda de ovelhas acompanhado por letreiros em um amarelo solar de uma fonte digna de um filme de Renoir foi de uma frustração quase que ofensiva. Gostaria muito de estar errado quanto a meu desconforto juvenil inicial e que o filme (que seguia o discurso essencial, dentro da conjuntura política contemporânea, de Universo) não desaguasse em um drama irônico de autocrítica branca que o próximo plano (pastiche de La Cienaga de Lucrecia Martel) viria, infelizmente, anunciar.

Primeiro plano composto de três rostos brancos de meia idade tomando vinho com um lago ao fundo, um deles exclama “mas que saudade de Buenos Aires”. A partir desta cena já tinha ficado muito claro por onde Linhart e Barbosa dirigiriam o filme. Neste primeiro momento é estabelecida a rede básica da trama familiar. O grupo familiar passa o momento de virada de ano dentro de uma casa velha em um rancho gaúcho. Lula acaba de ser eleito, é o dia da posse. A casa pertence à matriarca da família que só vem passar qualquer período de tempo no terreno quando lhe faz gosto, mas vive reclamando sua vontade de vender a propriedade, enquanto o núcleo de seus três filhos expressam um certo tipo de dependência com a casa. Dos três filhos, dois são casados. O mais novo, solteiro, têm um caso baseado a combustão de cocaína com a mulher do irmão do meio. O irmão mais velho (entusiasta de armas de fogo) parece estar sempre a um passo de explodir em uma agressão física a seu filho de seis anos que gosta de usar maquiagem e roupas femininas. O neto mais velho da matriarca, filho do irmão mais velho, diverte-se com brincadeiras regidas por uma masculinidade tóxica que mais é uma maneira sua de reprimir seus desejos homossexuais por seu primo. O mesmo neto que vem assediar sexualmente a filha da empregada doméstica negra que vive na casa. No ato do assédio o neto faz com que a adolescente quebre duas taças de cristal trazidas pela matriarca, levando a mesma a entrar em um conflito aceso, oprimindo mãe e filha. As duas quase não possuem falas em cena, se fosse compilado o tempo de cena das duas, provavelmente, não teríamos mais de sete minutos. Os maiores atos de expressão do núcleo das duas foram quando a menina humilha o neto assediador jogando um sanduíche — qual a matriarca obrigou-a a servir — na face do mesmo enquanto este masturbava-se, seguido pela decisão da mãe de abandonar a fazenda pelo portão da frente após desligar o gerador geral da casa.

Domingo tem seus méritos formais e um discurso bem intencionado nesta chacota da proto-aristocracia decadente brasileira. O problema é que as vozes deste grupo são altas até demais, taxando uma composição de suas personagens resistentes (a mãe e a filha) que efetiva-se como tóxica. A entidade deste discurso sobre estes corpos eurocêntricos já encontra-se tão exaurida que a mesma chega a proclamar o “fim da história”, afirmando a “meta-história” como única realidade possível. A história deles pode já ter entrado em loop, mas a de todas as outras entidades culturais resistentes está apenas engatando na próxima marcha. Por menos histeria branca meta-crítica e mais luta efetiva na tela.

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