Bancada da Bala Cristã

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2018


A ideia por trás de “Cano Serrado” não é toda ruim. Trata-se de uma tentativa de dar continuidade ao projeto de fundar, de fato, o cinema de gênero, neste caso ação, no mercado nacional. Erik de Castro havia realizado “Federal” anteriormente, na mesma ideia. Ambos os projetos fracassam em alcançar o que tanto almejam, por diversas decisões estéticas que tiveram, comprometendo o resultado final.

Recentemente temos exemplos muito sólidos de longas metragens de terror que atingiram seus objetivos, tanto “As boas maneiras” como “À sombra do Pai”, são extremamente competentes em criar uma atmosfera estranha e inquietante, capaz de culminar no ato final de cada um. O diretor de “Cano Serrado” tinha um tarefa mais difícil do que parece, criar uma espécie de Neo Western a partir de uma trama envolvendo vingança e assaltos à beira de estrada. A primeira cena é deslocada da narrativa, apenas se justificando na metade da projeção, o que não faz dela uma cena funcional, já que vemos um corpo e um militar chorando em cima do mesmo, além da maquiagem artificial de bala no rosto, não possuímos nenhum laço emocional nem com o cadáver, nem com o Sargento.

A narrativa irá acompanhar a vingança do Sargento Sebastião aos homens que assassinaram seu irmão, o homem baleado no início. O longa se inicia e logo recebemos o acompanhamento da trilha sonora, em geral rocks genéricos e pequenos riffs. Além da falta de originalidade na proposta, a mixagem que escutamos não consegue casar com o projeto. Para agravar o início, o diretor opta por gerar um excesso de didatismo no diálogo do fascista com a filha, professora, colocando os maiores clichês na boca da personagem: “Mas pode acabar pegando inocentes” e ele responde como o futuro presidente do Brasil: “Paciência”. Minha referência ao político é justificada em um plano onde vemos a bandeira do Brasil enquadrada ao lado do rosto do milico. O problema está na condução que nos é passada, o desserviço prestado pela obra é tamanho, já que coloca na figura feminina a repetição de argumentos e na imagem do professor esse discurso passivo que está datado tem quase 10 anos. Logo, a compreensão das questões éticas e morais que vemos na tela serão deturpadas, é um projeto que apenas piora nosso cenário político atual. Tentando justificar atitudes do torturador cria-se uma atmosfera volátil, que torna-se mais perigosa em seu ato final, onde o discurso fílmico quase o eleva ao status de anti-herói.

Os excessos são diversos, drones, repetição de eventos (apenas mudando o ponto de vista da história) e furos de roteiro. Porém, debater sobre a questão dos pontos de vista é essencial. Esse ano Marcos Vinicius de 14 anos foi assassinado pela polícia, sendo alvejado por um tiro de blindado. Já que “Cano Serrado” quer diversificar os eventos através de narrativas distintas, vamos colocar tal situação na pauta. Um garoto com a camisa da escola é atingido por um carro à prova de balas da polícia. Qualquer tentativa de justificar a ação dos policiais leva sempre ao mesmo resultado, Marcos é morto. Ah, mas ele estava correndo, morto. Ah, mas ele estava… morto. Não há perspectiva diferente. Da mesma forma, tortura é tortura, e não tenta se justificar isso, não se coloca a menor razão na voz de fascista, assassino é assassino, independente do motivo. Algumas frustrações do diretor foram colocadas em jogo, ninguém presta na história, no fim todos são frutos de um sistema corrupto. E a patologia instalada nessa ideia, na maneira como vemos, é que o Sargento possui alguma justificativa dada pela trama. Tão esdrúxulo quanto os sons das armas do filme, é a tentativa de legitimar discurso genocida. Aliás, esdrúxulo não, vergonhoso. Se a intenção do cineasta era criar uma farsa imensa a partir do que está sendo filmado, meus pêsames, atingiu exatamente o oposto do que desejava. Em 2018 não dá para fazer igual o publicitário-cineasta José Padilha e tentar reaver o discurso, tendo que fazer uma sequência a fim de se defender dos protestos. Isso não vai acontecer com “Cano Serrado”.

Além dos diversos desistentes no meio da sessão, ouviam-se risadas em cenas dramáticas e em cada plano com drone, e acredite, são muitos. Sua encenação desajeitada parece ser acompanhada pelos atores, Jonathan Haagensen, Fernando Eiras, Rubens Caribé, Milhem Cortaz, Sílvia Lourenço e Paulo Miklos, não funcionam dentro da proposta dramática dos personagens. Inclusive, Milhem Cortaz possui uma manga da camisa levantada o tempo inteiro, aparentemente a direção de arte acreditou ser uma escolha interessante, já que o personagem não fala mais que cinco vezes.

O longa demonstra uma tendência perigosa no Brasil e não justifica seu discurso corrosivo em nenhum momento.

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