Disforme, mas com um propósito

Por Pedro Guedes

Durante o Festival do Rio 2018


“No Portal da Eternidade” é um título genérico e cafona que não faz jus ao filme que o carrega: ao ler/ouvir este nome, o espectador pode ser induzido a acreditar que se trata de mais uma daquelas cinebiografias tolas e melodramáticas que tendem a enxergar o biografado não como um ser humano, mas como um ícone infalível. A verdade, porém, é completamente diferente, já que o longa pode ser acusado de ser disforme, pretensioso e até mesmo cansativo, mas tem uma coisa que ele certamente não é: convencional. Na prática, “No Portal da Eternidade” é uma experiência bizarra, mas também ousada e admirável que leva o público a entrar na mente psicologicamente instável de Vincent Van Gogh.

Trata-se, no entanto, de um filme peculiar que nunca deixa o público completamente à vontade diante do que está vendo: investindo em planos subjetivos que mostram-se feios e deselegantes ao colocarem o espectador sob a pele de Van Gogh, o diretor Julian Schnabel (que tem certa experiência com biografias de artistas, já que também comandou “Basquiat”) abre a projeção com uma tomada horrorosa que, rodada com uma câmera irregular que treme na mão do responsável por segurá-la, desperta no espectador a impressão de que o que virá nas duas horas seguintes será desagradável. Em compensação, esta decisão estética revela-se surpreendentemente correta à medida que a trama avança, já que serve para ilustrar os distúrbios psiquiátricos que se refletem na forma como Van Gogh enxerga o que está ao seu redor.

Pois a realidade é que Schnabel tem tudo sob controle e não entrega um filme visualmente disforme à toa – e se alguém tem dúvida disso, basta perceber como o diretor praticamente ignora o conceito de “eixo” ao enfocar um diálogo, porém com um propósito bem estabelecido (não se trata de um desleixo primário cometido pelo cineasta; há uma razão para que isso aconteça). Contando com uma performance simplesmente formidável de Willem Dafoe (como não poderia deixar de ser), que encarna Van Gogh como um sujeito complexo que não deixa suas convicções esconderem seus medos e indignações, “No Portal da Eternidade” é uma experiência muito estranha. E isto, acreditem, é um elogio.

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