Botando fé nesses guris. Vêm eleições 2030 (Pelo amor)!

Por Gabriel Silveira

Durante o Festival do Rio 2018


Os primeiros momentos de “Eleições” são de um brilhantismo tremendo. Alice Riff joga a encenação em um limbo determinista esquisito que faz o espectador apenas pedir por mais. Esse primeiro terço do filme nos insere em uma decupagem regida por um dinamismo, tanto espacial, quanto composicional, que remete direto á desconstrução de uma cena meticulosamente roteirizada, o que, dentro de nossa leitura, vai de um encontrão obtuso com o senso de cena daquelas personagens quais pareciam que eram performadas sob uma cadência e um rítmo naturalista encantador por um elenco que gozava de uma química tremenda. Esse frenesi da dúvida e do estranhamento da encenação dura uns 2 minutos até compreender-se que aqueles não eram atores e que aquela encenação provavelmente foi de um fluxo e um momentum eventual. Ainda assim, estonteante de se estudar.

Na cena em questão um professor apresenta à turma conceitos básicos democráticos no intuito de desaguar em um diálogo sobre o compromisso social do voto. O pavio da turma é aceso e as discussões tomam os rumos devidos que deveriam ser tomados por um grupo seleto de adolescentes que já possuem uma consciência de seu posicionamento político dentro da sociedade brasileira. A intenção do professor era levar aquela conversa inicial à proposta das aberturas de chapas de grêmio da escola.

Um grupo composto majoritariamente por meninas acaba levando seu caloroso debate quanto a estruturação de seus discursos e integridade moral-social à fundação da Chapa Rosa, com o número de chamada 32. O número foi escolhido como uma ligação ao evento da conquista do voto feminino de 1932 e o nome é levado como uma síntese do martírio feminino. De alguns integrantes que antes debatiam nas conversas iniciais da Chapa Rosa, mas que não encontraram a maior gama de representatividade de si na chapa veementemente feminista, nasceu a chapa Mais Diversidade, onde (como o nome em si aponta) pautas LGBTQ+ são tomadas como carro chefe de sua campanha. Junto das duas chapas surge também a Chapa ID, que vêm reivindicar em seu discurso primário uma política de “centro” e sobriedade numa busca por representação identitária, como veio afirmar isso uma das integrantes da chapa que é de descendência direta de paraguaios e faz do âmago de seu discurso de resistência a luta por efetivação e reconhecimento moral de sua cultura.

Ainda pensando na força da encenação deste primeiro momento do filme, é admirável a consciência da vontade de ocupação e dispersão de suas vozes que alguns estudantes da Chapa Mais Diversidade e Rosa têm. Os alunos usam e abusam daquela oportunidade que a encenação do filme lhes oferece, levando o ato de exposição como saturação de suas vozes através do discurso do corpo e da fala. Mais potente que a efetivação do discurso feminista contínuo das meninas da Rosa é como alguns integrantes da Mais Diversidade afirmam seu espaço através de seus corpos com veemência, como um dos estudantes que usava uma forte maquiagem feminina, o que, pensando na atmosfera opressora do assédio escolar, é de uma coragem tremenda — mas o exemplo primário de toda esta sagacidade foi a atitude de uma dupla de estudantes de uma escola vizinha que foi convidada pela Chapa Mais Diversidade a dar uma palestra sobre identidade de gênero e respeito à comunidade LGBTQ+ a uma turma de estudantes do primário. A dupla (cuja a identidade de gênero não foi definida pelo texto do filme, revelando-se ambígua) veio à sala de aula completamente produzida, usando conjuntos de roupas glamurosas e exclamativas que pareciam demasiadamente complicados de se utilizarem numa rotina escolar, apontando, então, esta consciência aguda daquelas personagens quanto a potência de ocupação de seu discurso dentro do dispositivo cinematográfico.

Após o primeiro terço do filme, Riff acaba perdendo aquele momentum inicial e acaba estagnando o fator de surpresa tão admirável, cedendo, então, ao desenrolar da narrativa da concorrência entre as campanhas das chapas Rosa, Mais Diversidade, ID e uma quarta chapa que surgiu posteriormente, a P.A.S. . Prestando homenagem ao nome do colégio (Doutor Alarico da Silveira) a chapa vinha defendendo uma política de ação duvidosa, a menos embasada, sem apontar qualquer estratégia válida quando comparada ao resto das chapas. Vinha atuando nos debates com a atitude mais ignorante entre a concorrência e procurava sempre comparecer na desmoralização do discurso concorrente, chegando até mesmo a mandar seus possíveis eleitores calarem a boca durante os debates quando esses eram contestados por seus discursos. Chegando a uma altura da campanha, a P.A.S. deixou de fazer-se presente nos debates. Com a chegada da P.A.S. foi divertidíssimo estabelecer um paralelo tragicômico com nosso cenário político contemporâneo. Pelo menos na conclusão de Eleições o eleitorado elegeu um dos partidos que fazia-se presente nos debates.

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