Queria ser brasileiro como Gilda

Por Gabriel Silveira

Durante o Festival do Rio 2018


“Gilda Brasileiro – Contra o Esquecimento” é um filme sombrio, por inúmeros motivos. Apesar de ser co-dirigido por Roberto Manhães Reis e Viola Scheurer, sinto como se a mão de Roberto tivesse pesado mais no resultado final, isso não por decisões de composição de encenação no filme. Não, em minha posição de espectador recém desvirginado pela obra, não tenho como opinar em basicamente nada em relação ao processo criativo da dupla de diretores, apenas posso tratar o material empírico que experienciei, e quanto a este, posso afirmar que a presença de Roberto fez-se tenebrosamente fúnebre. Afirmo isto sem nem mesmo saber se aquela era de fato a voz de Roberto — é irrisório perceber agora como esta é justamente a questão do âmago do filme.

Gilda Brasileiro é arqueóloga, filha de pai afro descendente e mãe judia alemã. Após se mudar para Salesópolis(SP) deu-se de encontro com uma casa de barro que era usada como ponto final de uma extensa rede de tráfico ilegal de escravos (já após pós proibição). Gilda compreende o que há naquele espaço, diferentemente (ou não) dos herdeiros daquela propriedade. Era óbvio que aquele espaço era utilizado como chão para os mais atrozes crimes contra a integridade humana, mas a família interiorana (branca e herdeira do capitão dono original da terra) — que chegou a promover aquele espaço como um pequeno museu da escravidão que vende balas halls — preferiu levar a sua narrativa daquela parte da história do país por uma outra vereda; uma mais lúdica, por assim dizer, aquela qual seus ancestrais gostavam de propagar.

Reis e Scheurer tratam da narração da obra sempre em um estado de primeira pessoa curioso, existe ali um protagonismo fluido que encontra um dinamismo funcional. Isso se dá porque as cenas em Gilda são compostas por regimes de encenação inseridos em cascata. No filme de Reis e Scheurer, Gilda dirige seu próprio curta-metragem sobre sua pesquisa-guerrilha, procurando expor de uma maneira muito empírica todo um relato daquela narrativa perdida: registrando a trilha do Padre Dória (padre que, de certa maneira, investiu em parte da rede de tráfico, procurando incentivos fiscais, até o projeto ser lesionado), as personagens que são responsáveis pela integridade da memória regional de Salesópolis (patronos de famílias que, apesar de terem uma matriz hereditária predominantemente negra, vieram a ser “branqueados”não somente etnicamente mas, também, obviamente, “excomungadas” do protagonismo cultural da narrativa negra). Esta excomunhão, que se dá pela máquina hegemônica inexorável, é que resulta na senhora que ostenta sua herdada junta de “rezas poderosíssimas” que são manejadas como seu próprio tesouro nacional; as rezas obviamente são patrimônio negro, mas seu santuário é comandado por um exército de santos cristãos.

Este contato empírico de Gilda efetiva-se também em combate direto ao discurso hegemônico. Em um dado momento, Gilda entrevista o dono de uma propriedade que contava a história de uma negra que era parte da família, ela tinha um “s” queimado em brasa em suas costas, “diziam que era coisa do tempo dos escravos, como tudo que era propriedade da fazenda era marcado com o s da familia”, “ela era sim um membro da família” diz o senhor de aparentes 50 anos. Gilda tenta contornar a entrevista tentando deixar claro para o homem que aquela mulher era de fato escrava, mas, com a relutância do indivíduo, o diálogo apenas consegue chegar em um impasse extremamente constrangedor onde o entrevistado procura entregar-se a uma serena e tenebrosa ilusão.

A narrativa em cascata mencionada anteriormente se efetiva com o posicionamento da dupla em observar Gilda dirigindo sua própria narrativa com maestria, havendo dentro da própria forma do filme momentos onde a voz de Roberto permite-se entrar em um limbo reflexivo que gira ao entorno da narrativa de Gilda sobreposta à imagética horripilante das fotografias de campos de trabalho escravo registradas por Marc Ferrez. Um trabalho de pesquisa e preservação exímio por parte da produção do filme que, não somente abriu uma porta de diálogo vital para com aquelas imagens, como, também, as resgatou do esquecimento comprando as matrizes que estavam nas mãos da família de Ferrez, trazendo assim uma dimensão de leitura gigante às próximas gerações — preservação na marra.

Gilda veio numa jornada para arrebentar este discurso da hegemonia genocida. Uma jornada tão árdua proferida por aquela encenação, que exala tanto amor e coragem, que me remete, diretamente, a energia similar de Piripkura (2017).

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