Eufemismo autobiográfico

Por Vitor Velloso


O cinema brasileiro possui uma deficiência em gêneros cinematográficos, eles se resumem a dramas e comédias, além do romance. Não possuímos uma tradição no suspense, por isso a importância de um filme como “Canastra Suja”, nem mesmo de ação, temos algumas tentativas: “Reza a lenda” e “O Doutrinador”, ambas tenebrosas. Uma das vertentes mais lucrativas do cinema é a cinebiografia. Movimentando bem o público, esse conceito de cinema veio a ter uma crescente no Brasil a partir de meados dos anos 2000 pra cá, culminando num longa que possui uma importância ímpar ao atual momento da cinematografia tupiniquim: “Bingo: O rei das manhãs”. Não é a crítica dele, mas é necessário dizer que há deficiências apesar de sua importância.

Em 2 anos tivemos uma avalanche, que trouxe coisas como: O problemático “Elis” e o retorno de Sérgio Rezende com “O Paciente”. “Chacrinha – O Velho Guerreiro” vêm de uma vertente que busca um equilíbrio entre “Bingo” e “Elis”, já trazendo com força a influência do palhaço. Buscando detalhar algumas construções psicológicas que levaram o personagem título ao momento de sua morte, mas é claro homenageá-lo como um dos maiores influenciadores da história da TV. E por esse motivo deve-se destacar a interpretação de Stepan Nercessian, conseguindo compor diversas manias e facetas do protagonista de uma maneira orgânica, já Eduardo Sterblitch que interpreta “Abelardo”, ou seja, o “Chacrinha” antes da fama, é eficiente em transmitir a malandragem e a sagacidade que o velho canastrão desenvolveu ainda mais ao longos dos anos.

A proposta estética de Andrucha Waddington é funcional, consegue imprimir um drama contundente de vícios da personagem com uma decadência que chama a atenção, porém, falta autoria em determinadas construções de misancene que requer uma estruturação e decupagem mais incisivas. A voz do diretor consegue se sobressair em alguns planos, especialmente o último que possui um fluxo bastante peculiar, mas some em proposições na transição do início à metade, soando muito jogado no espectador. Consequentemente essa falta de uma estruturação que seja gradativa e que acompanhe a progressão do personagem e, logo, da história, se reflete no público como uma cadência desordenada, por diversos motivos. O primeiro é nítido, toda a construção do Abelardo mais novo, acontece em pouquíssimos minutos e sua transição é muito brusca. E segundo que esses saltos temporais, aliados das tentativas de jogar luz a diversas polêmicas na carreira do apresentador, arrastam a narrativa a um ponto que o projeto que tem duas horas, parece ter três. Esse expandimento do tempo, não funciona, pois não há contemplação de novas oportunidades, apenas enxergamos os bastidores de históricas que conhecemos, mas sem a curiosidade ser saciada, já que a Globo alivia a barra da empresa em diversas ocasiões, principalmente quando o assunto é “Boni”, interpretado por Thelmo Fernandes.

A construção psicológica de todos os personagens é unidimensional, exceto o Chacrinha, o que soa uma postura de centralização dramática na história do protagonista de forma unilateral, porém, não se justifica, já que sua relação com as pessoas à sua volta, subordinados ou familiares, ainda que esta diferença nem sempre parecesse ser compreendida, são alicerces fundamentais na consolidação da imagem do Chacrinha e da sanidade de Abelardo, ainda que esta última pode ser uma discussão à parte. Sendo eficiente em mesclar a comédia e o drama, o projeto se mantém fiel a uma voz comercial e um padrão televisivo. Possivelmente é uma aposta que a Globo irá fazer daqui pra frente, longas que serão exibidos nos cinemas, irão bem de bilheteria e garantirão o lucro absoluto na carreira televisiva, podendo utilizar como desculpa, tal deficiência, a um jogo metalinguístico entre o tema abordado e linguagem utilizado.

“Chacrinha” no fim, não é um longa tão problemático quanto poderia ser, mas o ato de omitir as verdadeiras intenções de diversos personagens, incluindo do protagonista e diminuindo polêmicas a fim de evitar a problematização da imagem da Rede Globo. Essa inclusão de atitudes mais passivas que ocultam as hipocrisias dos discursos de empresários e redes que buscam o capital estrangeiro e o imperialismo cultural sendo importados diretamente do Tio Sam. Ainda que tudo isso seja nocivo ao resultado final da obra, o valor de entretenimento que há, vai garantir uma bilheteria vasta ao longa.

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