Artefatos sem valor

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2018


Exibido na mostra competitiva do Festival de Berlim 2018, “Museu” é sobre o “roubo mais marcante e infame da história do México” por uma narrativa de suspense thriller de um filme que planeja, arquiteta e assume a ação, pegando gancho em estruturas similares de “O Anjo”, de Luis Ortega, e “Plata Quemada”, de Marcelo Piñeyro.

Dirigido pelo mexicano Alonso Ruizpalacios (de “Guerros”), o longa-metragem busca uma condução mais intimista (pela imagem película de nostalgia estética), fazendo com o público participe das dúvidas, limitações e fragilidades do crime ao Museu de Antropologia. E seus slides temporais e “The Doors” com “Riders On The Storm”.

Na manhã do Natal de 1985, os estudantes Juan Núñez (o ator Gael García Bernal, que é apresentado fisicamente malhado – é o galã de charme pateta do filme) e Benjamín Wilson (o ator Leonardo Ortizgris) invadem o Museu Nacional de Antropologia na Cidade do México para roubar 140 peças pré-hispânicas de suas vitrines (“novas, raras, únicas, peremptórias e inestimáveis”), como a máscara do Rei Pakal, meses depois do terremoto que quase destruiu a cidade. Ao perceberem a gravidade de suas ações, decidem fugir. Enquanto isso, a polícia não suspeita que os autores do crime poderiam ser jovens inexperientes que vivem nos subúrbios da classe média, as cidades satélites.

“Museu” é também um turístico Road-movie, por atravessar as ruínas de Palenque e Acapulco para encontrar respostas e possíveis compradores (colecionadores “egoístas”, “ricos”, “individualistas”). É sobre dois indivíduos que desgostosos com a situação atual do país e deles mesmos, resolvem transformar apatia resignada em ação-reação. É uma “história réplica da original” com sua narração livre, de lembranças e que complementam possíveis imagens de arquivo.

É a construção do “sonho imortal”, intercalando o clássico e o moderno. A elegância da nostalgia (pela fotografia e pelos ângulos não convencionais da câmera – foco na árvore e no piano que toca sozinho) com o status desengonçado de seus personagens em ações infantis que mais parece “Uma Noite no Museu”, de Shawn Levy. E ou uma inferência ao filme “O Máscara”, com Jim Carrey, pela máscara verde ancestral (“para covardes”). E a “Indiana Jones”, pela aventura propriamente dita.

“É impossível saber o início das histórias, só o final”, diz-se e “sorri com os dentes”. O longa-metragem ambienta um cotidiano. Por uma estranheza proposital (como no surrealismo quase autista do tempo enquanto espera a observação atenta de uma obra de arte). A família e a convivência entre eles. Tudo por um humor pastelão mascarado de sério, como a cena em que está Papai Noel. Há um que de Steven Soderbergh em “Onze Homens e Um Segredo” (sem alívios cômicos na ação) com “Nove Rainhas”, de Fabián Bielinsky (sem o sarcasmo passivo agressivo dos argentinos). Ora com a tela dividida em duas telas, com duas ações simultâneas. Nós começamos a perceber um tom mais amador. Uma imaturidade do diretor em buscar o rebuscamento do Kitsch como conceito, soando assim ingênuo.

“Museu” acontece também pelos detalhes. Pelos nervosos discursos, pelo quase blackout da luz soturna e pela prisão familiar de uma festa de natal (e a abertura dos presentes antes do tempo). Isso quer que nós percebamos sobre um imediatismo primitivo. Um processo de um criminoso sem talento de “palhaços ladrões cientistas”. Mas no “mesmo horário, mesmo local”. “Não há volta”, diz-se enquanto Gandhi o observa e se torna uma “testemunha”, embalado por uma trilha sonora de um Japão antigo à moda de “O Império do Sol”, de Steven Spielberg.

Há também uma liberdade poética do roteiro filosófico e existencialista. Mais zoada, como por exemplo, o gato que toca a obra de arte. Mais facilitadora com seus gatilhos comuns (ajudados pela própria História, de um México que não acreditava na própria cultura e de nenhum indivíduo social teria coragem e ou vontade de roubar algum artefato arqueológico). Assim, não há alarme, não há o cuidado em usar luvas. Só há câmeras espreitadas, closes carentes, alucinações, pai rebelde, picardias de transformar o personagem de Gael em um pseudo ator famoso (a piada metalinguagem do “autógrafo ao guarda”). “A morte é sempre nossa companheira, e ninguém vai comprá-las por serem roubadas”, diz-se.

“Museu” é um descontínuo filme irregular de ação que estimula brincar com o perigo. De crianças grandes sem noção acreditando que são super-heróis, como quando desligam o farol do carro na estrada à noite. “Por que fez isso”, “Para impressionar”. As “portas do paraíso estão fechadas” e alimentadas por recompensas de cinquenta milhões. Um filme que se perde quando precisa criar cadência narrativa, pululando clichês como finais e obviedades transgressoras como tomar bebida no artefato de arte. Um filme que tenta consertar a estranheza. Essa sua maior fragilidade.

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