Vamos, público, chore!

Por Pedro Guedes

Durante o Festival do Rio 2018


Em certo momento de “A Rota Selvagem”, o protagonista (vivido por Charlie Plummer) revela que vem tendo pesadelos onde seu melhor amigo, o cavalo Lean On Pete, se afoga até desaparecer na água. É impossível ouvi-lo dizer isto sem se lembrar de uma das sequências mais marcantes de “História Sem Fim”, onde o pequeno Atreyu vê seu cavalo Artax afundar no Pântano da Tristeza – e praticamente todas as crianças que viram isso ficaram chocadas quando se depararam diante de uma cena tão triste. Infelizmente, o fato desta lembrança estar presente em “A Rota Selvagem” apenas comprova a pobreza deste novo filme, que apela para uma das passagens mais emblemáticas do longa que Wolfgang Petersen dirigiu em 1984 de maneira óbvia, fácil e nem um pouco criativa.

Dirigido e roteirizado pelo mesmo Andrew Haigh de “45 Anos” (aquele que fez Charlotte Rampling ser indicada ao Oscar, em 2016), este “A Rota Selvagem” gira entorno de Charley, um garoto de 15 anos que vive com um pai irresponsável que constantemente entra em brigas violentas. Depois de arrumar um emprego num clube de jóquei, Charley passa a cuidar dos cavalos que ficam ali e acaba se apegando a um deles: o dócil e carinhoso Lean On Pete, um dos cavalos de corrida mais frágeis daquele estábulo. Mas aí ocorre uma tragédia que deixa Charley à deriva e, com isso, o menino resolve libertar o animal, o que leva a dupla a perambular pelo sul dos Estados Unidos.

Em outras palavras: “A Rota Selvagem” traz praticamente todos os clichês melodramáticos que se esperam de um novelão esquemático, como o garoto desajustado que vive com um pai inconsequente, a vontade de conhecer uma tia que há muito se distanciou por causa de uma briga, a morte de um personagem que basicamente foi feito para morrer, a jornada do protagonista em direção ao fundo do poço, os atos falhos que surgem em função disso, uma leve pontinha de esperança que aparece de vez em quando, o abandono de todos que estão ao seu redor e, claro, a relação entre o menino e um animal fofinho – e nem é preciso dizer que até isso resulta em algum problema, certo? De qualquer forma, estas armadilhas poderiam ser contornadas se o roteiro e a direção ao menos se esforçassem para que o resultado não sucumbisse à artificialidade – o que não é o caso de Andrew Haigh, que transforma o filme num dramalhão desesperado para fazer o espectador chorar.

E o pior é que nem os principais conflitos criados pelo roteiro (com base no livro homônimo de Willy Vlautin) são desenvolvidos de maneira satisfatória: a relação conturbada entre Charley e seu pai se sustenta em clichês; os personagens que aparecem no estábulo onde o protagonista trabalha existem para melhorar ou atrapalhar a vida do menino de acordo com as necessidades imediatas da narrativa; e os dramas enfrentados por cada indivíduo presente na trama parece ter saído de um guia básico de sugestões para quem quer escrever uma novela sem perder muito tempo. Para piorar, a interação entre Charley e o cavalo Lean On Pete (que deveria ser o centro emocional do filme) é estabelecida de forma apressada e superficial, já que existem pouquíssimas cenas que se concentram somente a dinâmica entre dois – e mesmo essas são banais, esquemáticas e rápidas demais para surtirem algum efeito.

Dito isso, o elenco até tenta conferir alguma profundidade aos papeis que têm em mãos: Charlie Plummer se sai relativamente bem ao retratar o protagonista como um garoto maltratado pela própria vida e que não vê uma solução viável para seus problemas, ao passo que Steve Buscemi é bem-sucedido ao transformar o patrão de Charley em uma quase figura paterna para ele – isto é, até o roteiro decidir sabotá-lo ao transformá-lo em mais um obstáculo para a vida do rapaz. Já Travis Fimmel (que se destacou na série “Vikings” e teve o desprazer de estrelar o horroroso “Warcraft”) encarna o pai de Charley como um sujeito incorreto, mas sem jamais conquistar a simpatia (ou empatia) do espectador, que passa a encará-lo apenas como… um cara chato e aborrecido.

Enfraquecido também pela montagem de Jonathan Alberts (que, do meio para o fim, parece ter perdido qualquer interesse em realizar um trabalho competente, já que subitamente passa a investir em cortes de fusão deselegantes que ligam uma cena à outra de maneira preguiçosa), “A Rota Selvagem” é um dramalhão tolo e açucarado que se alonga em duas intermináveis horas e não chega nem perto de fazer o espectador chorar.

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