Um canto de esperança

Por Gabriel Silveira

Durante o Festival do Rio 2018


Clementina de Ana Rieper constrói, com uma facilidade admirável, toda uma narrativa de encontros através do discurso falado de suas personagens, que pinta e recria magistralmente a atmosfera do universo de pureza, ritmo, amor e resistência que girava em torno do ser solar de Clementina, a cantora fluminense que, mais que pode, deve compor o pódio das musas absolutas do jongo e do samba.

Curiosa é a maneira como a obra começa uma de suas sequências iniciais — como a presença da cantora se dá pela pesquisa de um vasto e precioso material de arquivo (quando não pela construção dos admirados relatos falados). O filme começa com a voz de uma repórter gringa que pergunta à Clementina sobre seu famoso jongo, sem fazer qualquer charme ou expressar qualquer hesitação a cantora abre a boca uma vez e simplesmente permite o ritmo contaminar toda a cena, uma vez que o grupo de músicos ao seu redor não resiste a tentação ao escutar apenas três compassos de melodias mágicas da cantora e levam a canção até um vortex frenético de espirituosa congregação

Em “Clementina” a resistência está aí, no canto; na fala; no discurso que corria o risco perante a efemeridade que a conjuntura do projeto de linguagem eurocêntrica conjurava e conjura sobre a narrativa mais espirituosa do espectro cultural.

Tomando a figura de Clementina como o “elo perdido entre Brasil e África”, dentro da perspectiva da conjuntura cultural/estética/filosófica da diáspora africana, matriz de nossa comunidade negra, o filme faz da musa/cantora este catalisador revelador de inúmeros discursos de personas e mestres da narrativa negra popular. Perante a obra, apenas consigo pensar em seu caso quanto ao discurso que vieram Ella Shohat e Robert Stam a desenhar há décadas — a “ventriloquização” de Hollywood para com a cultura mundial (principalmente quanto ao terceiro mundo) onde um exército de homens brancos escrevia as narrativas principais de outras comunidades em prol de seu imaginário genocida, ambicionando direta, ou indiretamente, a diminuição das possibilidades de auto representação linguística de outras nações — o que no fundo não passa de uma efetivação da agenda de “Conquista” neocolonial do projeto euro americano. Esta “ventriloquização” funciona como uma fase final na cadeia do processo que começa para os colonizados — como vem citar a dupla o texto de David Spurr — “Quando a fala é negada em um sentido duplo, primeiro um sentido idiomático de que não lhes é permitido falar, mas também no sentido mais radical de não lhes reconhecerem a capacidade de falar”

E Clementina é isso. Tanto a musa quanto a obra falam, cantam e expurgam naturalmente, no sentido da expressão espiritual e cultural inexorável, da força de potência da resistência à dominação da opressão hegemônica. Ter os ouvidos abertos para a fala de um indivíduo como Seu Mané, que vem descrever em primeira mão toda a vivência de seu lado da narrativa escravocata brasileira deve ser considerado mais que uma oportunidade, um privilégio. E, quanto a isso, Ana rieper tem total consciência, compondo muito mais que um palco de exposição e fascínio para o dom musical divino de Clementina ao lado de sua personalidade brilhante e seu estilo de vida que, quando analisado como que de longe por um míope, pode parecer a mais harmônica das fábulas tupiniquins por conta do carisma solar irradiado, a obra torna-se espaço de uma ode a validação daquele discurso étnico: Clementina proferindo sua arte em Dakar, batendo o pé quanto a suas crenças, seu estilo de vida, efetivando-se como “cantora profissional” com um pé inteiro na terceira idade. Cada expressão de Clementina que é montada e sintetizada neste filme é uma verdadeira declaração de afirmação de si e ocupação do aqui, com todos os quereres e contradições que compõem nossa desarmoniosa harmonia. Acho que síntese disso são os versos proferidos pela gênia em Barracão é Seu:

Barracão é seu, vou desocupar
Coração é meu, vou desabafar
Me dá meu violão que vou embora
Quero mostrar à senhora que tenho onde morar

Uma obra de uma positividade representativa tão lúcida, madura e responsável que vem a ser um elixir essencial para a alma brasileira em tempos de cura de nossos espíritos.

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