Ao som de ele não, francês não.

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2018


Em um momento político bipolarizado, onde a maior parte da população tende ao fascismo e/ou discurso de ódio “Deslembro” é uma obra que se faz atual. Esta afirmação vem da própria temática do filme. Uma família que retorna ao Brasil após anos de exílio na França.

Dirigido pela Flávia Castro, o longa possui como protagonista Joana (Jeanne Boudier) e todos seus conflitos em retornar ao país natal após anos na Europa. O drama da personagem gera empatia no público, seu carisma se mantém presente na tela, porém, a narrativa à qual ela constrói como centralização da história, possui diversas fendas por onde potencialidades políticas correm. Não é que não existam críticas diretas ao fascismo ou relações diretas ao momento atual, mas falta o dedo na ferida. Pois a questão central já está no roteiro, com uma alma mais guerrilheira a obra seria de uma força incrível, mas irá acabar no ostracismo, por uma abordagem pouco reflexiva do momento histórico mais sombrio das terras tupiniquins.

Um dos pontos que mais incomodam em “Deslembro” são as crises histéricas da língua francesa, quando determinado personagem está irritado(a) ele(a) fala “branquês”, esta postura da película faz a abordagem perder força justamente pelo fato de não tratar da França diretamente. Compreensível o fato de estarmos falando de personagens que viveram na Europa a maior parte da vida, porém, o longa não é direcionado a pessoas que não compreendem o que é viver à sombra do passado. Existe uma diferença primordial na historicidade dos dois países, um viveu o protótipo de uma revolução mal sucedida o outro resiste contra a miséria e o fascismo até o momento presente, por este motivo argumento contra o uso da língua européia aqui.

As relações familiares formam o esqueleto da narrativa, o fato de Joana não lembrar de seu pai, apenas escutar que ele morreu, mesmo que não haja provas, é um dos pontos altos. Por ser jovem e ter crescido longe da ditadura, ela não compreende o momento (a)político que o Brasil enfrentava, logo, não se conforma com a morte do pai. Seu padrasto, um militante ferrenho, tenta transmitir os “valores” de uma guerrilha em prol da democracia, ainda que não seja bem sucedido. Já sua mãe, viveu seus dias de luta e agora deve permanecer mais presente, a fim de garantir a segurança de seus filhos. Se há outro problema no projeto, é a divisão de desenvolvimento dos eixos narrativos. Os irmãos são muito novos, logo, desenvolver um conflito dramático funcional ao redor deles, é quase impossível, mas as figuras paternas que permeiam Joana, são levadas a terceiro plano, a diretora prioriza o crescimento da adolescente, introduzindo um pequeno romance, frivolidades de sua vida como “criança”. A construção se faz necessária, afinal, não estamos tratando da nova Angela Davis, mas sim de uma menina filha de militantes. A gravidade desta decisão fica visível na progressão da história, quando a projeção se encerra e entendemos que a luta continua, mas não nos conectamos com a gama de subtramas que são apresentadas, inclusive a de sua vó (paterna), vivida por Eliane Giardini.

O carisma é inevitável, contudo, sua presença em tela serve como exercício didático aos dramas que Joana vive. Não tenho o interesse em diminuir seus problemas, entretanto, grande parte das problemáticas apresentadas se dão em um ambiente de Zona Sul, onde mais da metade de seu convívio é relacionado a problemas de pessoas brancas. São concretizações de uma classe perseguida? Sim. Mas uma boa parcela do Brasil ainda era reprimida de maneira intensa, mesmo que já de maneira diluída. O foco narrativo se mantém nesse eixo de riqueza em um país que quebrou democraticamente, economicamente e socialmente, não à toa, o reflexo deste processo de pensamento, se é que podemos chamar assim, retorna hoje em 2018, elegendo um presidente capaz de dizer que o erro da ditadura foi não ter matado 30 mil. Por isso cito, com frequência o último longa póstumo de Raúl Ruiz, que enxergou as sementes do mal deixadas pelo governo totalitário, antes mesmo de ver se concretizar.

“Deslembro” não é um projeto covarde, mas é frágil o suficiente para que algumas questões sejam levantadas em seu nome. Mas por uma questão de importância histórica, infelizmente anacrônica, deve ser assistido e refletido.

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