Lutos em reação

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2018


Selecionado como o filme de abertura do Festival do Rio 2018, depois de ter passado pelo Festival de Toronto, “As Viúvas”, do diretor britânico Steve McQueen, não o icônico ator, e sim o realizador, queridinho e Cult do momento, de “Shane” e “12 Anos de Escravidão”, é acima de tudo uma obra de superação. De mulheres viúvas, envoltas em um meio dominado por homens e pela desenfreada violência, que precisam mergulhar na lama de seus maridos para que possam sobreviver no mundo cão de uma Chicago atemporal e sem lei, arraigada por corrupções e crimes. 

O que faz um longa-metragem ser diferente? Contar uma história de outra forma? A resposta é a presença dominante de Steve, que conduz com controle absoluto sua câmera que passeia com elegância quase mosca e por um roteiro preciso (ainda que precise da redenção facilitadora demais do final feliz).

É um filme comercial, mas seu diretor consegue ser mais, adicionando uma ambiência particular de conjugar silêncios e ações. O aprofundamento imersivo com a verborragia espontânea do cotidiano; e com a transformação do espectador em personagem, este, nós, que sente o instante como em uma experiência em quarta dimensão sem óculos especiais. 

“As Viúvas” é um filme coral sem a explicitação coral, comportando-se como um gênero de ator, neste caso, de atores, que se entregam completamente em seus papéis. Sua narrativa busca a aproximação com o público, por meio de sua câmera próxima, intimista, contemplativa, que espreita com permissão os arranjos sociais. Quando se diz que é quase mosca é principalmente por sua não presença. Como se não existisse.

E este é o melhor elogio que um filme pode ter. Potencializar o realismo com a proteção da ficção, com a fotografia saturada ao granulado (que remete a um submundo não estilizado e não caricato), com a edição ágil que acontece no tempo do piscar dos olhos. “Dar a Cezar o que é de Cezar”, ensina-se.

Quatro viúvas entram para o mundo do crime após os seus maridos morrerem durante uma das maiores tentativas de assalto da atualidade. Eles tomam para a si a responsabilidade de honrar a memória dos amados terminando o que eles não conseguiram completar. Com reações enérgicas, arquitetadas e sabendo lidar com as vivas projeções do querer. “Cachorros conseguem distinguir caráter?”, pergunta-se com eufemismo existencial, que tem sua resposta em outra cena “A cachorra é adestrada”.

“As Viúvas” é também sinestésico ao reverberar a intensidade, como na primeira cena de um beijo com língua, como em uma perseguição com tiros e explosões (bem à moda de um “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg), intercalando instantes, digressões e presente sem a indicação temporal. São histórias fragmentadas em videoclipes que ora geram o agito, ora, a desaceleração, com o propósito de confundir o próprio desenvolvimento da trama não linear, fazendo com que tenhamos que correr atrás das peças para montar o quebra-cabeça. “- Papel de parede? – Não, é arte. – Para mim é um papel de parede de cinquenta mil”, dialoga-se.

O longa-metragem, com um que de Martin Scorsese com Quentin Tarantino, também é uma crítica quando mistura negros e brancos, sucessos e falhas, resignações e soberbas de poder. Inicialmente, em um preâmbulo-apresentação, as mulheres comportam-se submissas, à deriva dos homens, aceitando esta condição como um estilo de vida. Logicamente, há gatilhos comuns respingados da estrutura entretenimento do cinema americano, como suavizações por um humor espirituoso (“Sou de um tempo que Face era um rosto que não se esquecia, e que Book era um livro que se lia para o filho na escola”). E ou um flerte crítico com o argumento invertido do politicamente incorreto (“Nepotismo não é ilegal”). E ou os “altos e baixos” que às vezes sobe demais o tom, como o grito catártico em close de frente a um espelho.

É um teatro realista, decadente e escurecido pelos acontecimentos na noite. Somos adentrados em submundos desnudados, em câmeras giradas, em agressivas intimidações, em consequências que surpreendem, em olhares que traduzem silêncios, verdades e iminências. “Não existem mais coveiros”, diz-se com brutalidade não sutil para logo cortar a cena e instaurar um retrato elegante de um cotidiano que ouve Nina Simone. Nem todos conseguem. Mas seu diretor consegue transitar com leveza e equilíbrio entre conteúdo e forma. Ação e reação. Produto e credibilidade artística. “Colhe o que planta˜, diz-se.

“As Viúvas” navega por personagens embrutecidos, desgraças alimentadas, segredos-provas em cofres, mundos diferentes descobertos, perguntas pragmáticas, “homens que devem sustentar as mulheres”, mães que “vendem” suas filhas. Não há tempo para sensibilidades mimadas. “A ignorância é a nova normalidade”, discursa-se. Há também uma visceralidade latente, um comportamento fisicamente orgânico, que busca o choque realista da violência, como facadas em deficientes. Não há limites. Tampouco suavizações. “- Armas? Onde? – Aqui é América!” (“A arma é a melhor amiga da mulher”).

As viúvas unem-se em prol do bem comum, como uma vingança crime. Um acerto de contas entre distritos. Por tarefas a cumprir vencem fragilidades e dependências, o filme planeja a ação final, e inevitavelmente (infelizmente) descamba a um tom acima, ficando forçado em suas interpretações e com suas bruscas reviravoltas facilitadas demasiadamente pelo roteiro (principalmente em seu epílogo). Mas ainda assim sentimos cada momento de tensão. Cada decisão. Cada consequência. E ainda que seu diretor tenha experimentado novos ares narrativos, “As Viúvas” é um filme que preza pela excelência, principalmente por seu elenco de peso, que inclui Viola Davis, Liam Neeson, Colin Farrell, Daniel Kaluuya, entre tantos outros.

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