Uma digna homenagem por uma sensorial ópera rock

Por Fabricio Duque


Salvo exceções, logicamente, é inerente ao cinema americano a reverberação de cacos narrativos. Ao se buscar a padronização de uma linguagem já formada, aceitável e segura, em gatilhos comuns, mais emocionalmente sensíveis e sensorialmente sentimentais, que se equilibram zonas de conforto do que se pode ou não abordar, e ou da quebra de barreiras técnicas-morais por alívios cômicos.

Suas fórmulas chegam a estruturar um gênero, questionando qual o grau de limitação, inovação formal e de liberdade contextual. E se analisarmos filmes cinebiografias, então todo esse preâmbulo é potencializado em inúmeras questões sócio-comportamentais de um país que mantém por anos a fio uma hegemonia da sétima arte, causando reflexos e influências em todo e qualquer novo cineasta que acredita no porvir de suas construções fílmicas.

No filme em questão aqui, “Bohemian Rhapsody”, sobre a história da banda Queen, com seu icônico vocalista Freddie Mercury, seu diretor Bryan Singer (responsável pela franquia de sucesso “X-Men”) almeja imergir o espectador em uma naturalizada energia advinda da própria carga emocional das músicas, que dialogam intimamente e interagem com o público, causando catarses, comoções e arrepios entre os arranjos e solos de guitarra.

O longa-metragem quer ser uma epifania, trazendo a nostalgia ao agora, como se fosse um holograma e ou uma viagem ao passado. Por uma fotografia mais amarelada. É também um filme de ator, acertando com a escolha de Rami Malek, que encarna visceralmente, sem reservas, sem ressalvas e entrega total o personagem (apesar de que soar que seus olhos interpretativos sejam os mesmos de seu papel no seriado “Mr. Robot” e uma prótese dentária não convincente, quase caricata).

Freddie Mercury (Rami Malek) e seus companheiros, Brian May, Roger Taylor e John Deacon mudam o mundo da música para sempre ao formar a banda Queen durante a década de 1970. Porém, quando o estilo de vida extravagante de Mercury começa a sair do controle, a banda tem que enfrentar o desafio de conciliar a fama e o sucesso com suas vidas pessoais cada vez mais complicadas.

“Bohemian Rhapsody”, título da música “obra-prima” com seis minutos (uma ópera rock – “poesia misteriosa para o ouvinte”) que revolucionou a indústria fonográfica (“Rock em escala de ópera vertiginosa”), é acima de tudo um filme biografia, que estreita a distância da íntima sensação vivenciada com a ficção propriamente dita. Em duas horas e dezessete minutos, é buscado contar toda uma existência: do trabalho de maleiro no aeroporto até a crença absoluta e incondicional do talento.

Logo em suas primeiríssimas cenas, desde a substituição do jingle logo da Fox, nós espectadores sentimos a força natural da energia das músicas, com seus solos de guitarra ao vivo, o filme constrói uma misè-en-scene de câmeras que passeiam, em elegantes e cotidianos travellings para ambientar um estilo de vida (que inclui maleta case para guardar o cigarro, a bebida e o microfone): um que de Elton John com um ostentado Kitsch excêntrico (e muitos gatos que observam – o próprio público), que dialoga com uma destoada cafonice (típico da época – que unia o clássico aristocrático com a vanguarda andrógena do moderno) a fim de esconder a verdade da solidão com “Somebody to Love”, cujas outras músicas representam seus anseios, dúvidas e frustrações existenciais.

Como foi dito aqui, um dos incômodos é a tentativa de moralizar a homossexualidade de Freddie, que casa com uma mulher e que se torna sua melhor amiga (que entende seu visual “exótico” e a feminilidade dele e que ganha toda sua herança – essa informação não está no filme – e que diz a ele que o que ele é não é sua culpa – a redenção aos gays). Ela a amava como uma defesa.

Sim, são muitas questões para serem abordadas em tão pouco tempo. E sim também, é um filme que objetiva o mais. Traçar toda uma vida, da fama, da família, do começo, dos empresários, das recaídas, da doença, das escolhas erradas, das influências dos “amigos” errados, da redenção, dos shows no Rio de Janeiro. De Bulsara a Mercury. A narrativa usa da liberdade poética para modificar épocas e acontecimentos.

Se o drama soa mais superficial, os números musicais não o são. Nem um pouco. Destaque para o concerto Live Aid contra a fome da África, em que a câmera (que voa do céu ao rasante do público) transforma-se em um experiência terceira dimensão sem óculos especiais. Sem dúvidas, a cena mais impactante e que arrepia. Impossível não se emocionar.

“Bohemian Rhapsody” é também sobre superação. Sobre vencer. Sobre impressionar com o dom do cantar e transcender os preconceitos com a aparência física dos “dentes a mais que aumentam a extensão da boca”. “Toda banda quer mais. Nunca com pouco”, diz-se. O filme enaltece a atitude de Freddie que inova na BBC e que mostra que o diferente pode ser igual e normal. Com seus sons experimentais que fugiam do padrão e da zona de conforto (com moedas em cima da bateria para criar uma única atmosfera), mesmo com “Dark Side of the Moon”, de Pink Floyd. É sobre “desajustados que não se encaixam tocando para desajustados”, “rompendo gêneros e limites” com “mais alma e corpo” e com a “parte lírica de um galo mais agudo”. “A sorte favorece os ousados”, diz-se. “Temperamentais” ou sabem tudo mesmo?

O longa-metragem não questiona em nenhum momento da maestria perfeição de Freddie, que sempre “olha para frente”. Que é uma “Queen escandalosa” com seu “casaco de lagarto irritado” (parecido com um “Gremlins”). O roteiro é extremamente facilitador e opta pelas façanhas e não pelas crises, suavizando as dificuldades que duram segundos. O álbum estoura nos Estados Unidos, mas ele hesita em encontrar homens em um banheiro público. A câmera não insinua a ida e sim enaltece sua decisão de permanecer conscientemente heterossexual, inclusive quando recebe um beijo de um bonitão.

“Bohemian Rhapsody” é muito mais sobre a solidão latente e cognitiva de Freddie. Que para não sentir sozinho dava festas “esquisitas” com “pó de pirlimpimpim”. O filme é um pêndulo de dramas, efeitos, sentimentalismos e sensibilidades aguçadas e apressadas. Pois é, o espectador também precisa aceitar o que se vê, porque é um filme americano (apesar de ser sobre a vida de Freddie Mercury, o “mesmo menino paquistanês assustado”, um imigrante, um alienígena, uma “lenda”, “um prostituto musical”, que “nasceu para ser performer e tocar os céus”) realizado aos padrões americanos de ser, tanto que a MTV proibiu o videoclipe de “I Want To Be Free”. “O ser humano é uma condição que precisa de anestesia”, sobre a fuga nas drogas e no sexo (para se proteger das “mosquinhas sujas das frutas podres”). E no final, a redenção, o recomeçar moralista, o enquadramento com as regras da boa conduta da sociedade. Mas corria porque a AIDS não dá “tempo para nós”. Como foi dito, o filme não foca nas crises e sim nos sucessos, como a apresentação arrebatadora de LIve Aid, que encerra esta digna homenagem.

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