A mórbida consciência arquitetada de Lars

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


Quem se encontrou no Festival de Cannes deste ano com o novo Lars Von Trier, diretor famoso por suas polêmicas (e que até mesmo foi banido no mesmo festival por seus comentários com um que de nazistas), não consegue mais ligar sua figura a suas obras dotadas de um pessimismo crônico sobre a humanidade, tudo devido a sua expressiva vulnerabilidade e pela expansiva simpatia.

Mas ainda assim o dinamarquês não conseguiu fugir das farpas e da polarização ame ou odeie (pretensioso oportunismo versus gênio incompreendido – tanto que em sua primeira sessão gala ao público mais de cem pessoas saíram da sala alegando que nunca tinham visto tanta violência e crueldade) de seu novo filme, “A Casa Que Jack Construiu”, exibido na mostra não competitiva.

Toda e qualquer obra de sua filmografia faz com que o espectador embarque (só com a passagem de ida) às entranhas viscerais e desnudadas da alma humana. Nós podemos contemplar uma sinestésica necropsia da psique humana, superexposta, cruel e cognitivamente desobstruída. E também mergulhar nas infinitas possibilidades do existir, sem maniqueísmos e ou julgamentos morais. Aqui, adentramos no violento processo da psicopatia, em que um único clique pode estimular todo um início, bem à moda de outro Jack, o de “O Iluminado”, de Stanley Kubrick.

“A Casa Que Jack Construiu” é sobre o embate do bem e do mal; da vontade e do poder; do querer ser e da automutilação em prol da sociedade, ainda que esta seja hostil, irritante, egoísta e altamente narcisista. Com o filme, nós temos uma chance fictícia de aceitar o que realmente somos: nossas vontades primitivas de matanças.

Quem nunca torceu pela personagem de Nicole Kidman em “Dogville” em sua derradeira vingança, então ganha o direito de atirar a primeira pedra. Sim, a humanidade não comete crimes pela imposição da culpa da religião (e o não mais reino dos céus), e ou pelo medo latente da lei (e suas prisões que limitam o ir, vir e ou a continuidade de nossas perversões e mórbidos desejos).

A narrativa nos conduz por capítulos e por seus incidentes. É um filme livro, de estudo de caso, que argumenta e expôs razões, ações e reações. Tudo se inicia pela decência e pela hesitação. Pelo altruísmo ingênuo de compreender as máximas idiossincrasias de seus próximos, excedendo assim os limites do suportável e do aceitável até mesmo àqueles que oferecem a outra face.

Sim, o filósofo francês Jean-Paul Sartre disse que “o inferno são os outros” e o grego Aristóteles fundamenta que “o homem é um animal social”. Entre estas duas teorias, encontra-se o ser humano, com suas dúvidas, mistérios divinos, anseios, emoções e obrigado a “fazer o bem sem olhar a quem”.

“A Casa Que Jack Construiu” é uma metáfora de dentro para fora. Uma parábola terapêutica e confessional. Do mundo que cada um vive. Da casa que construímos. Da base ao teto. É um filme análise. Dos feitos morais: perdões, culpas e abstenções emocionais. É um prestar contas com o universo. Um limbo entre o céu e o inferno. É o dia do julgamento terreno.

Nosso protagonista sabe exatamente quem é. O que esconde dentro de si. E a cada um que atravessa seu caminho fornece dicas em tom sarcástico sobre assassinos em série. E sequestros. Ele lida e aceita (como um cordeirinho) com a chatice, persistência dependente e os abusos dos outros de se impor fortes aos pseudo mais fragilizados. E um mísero instante o desperta e o transporta do zero ao mil. Sua tolerância perde contornos e com esse impulso pode “representar” finalmente “sua arte” (explicitado nas pinturas reconstruídas do capítulo final – uma poesia visual que nos encanta e nos desnorteia ao mesmo tempo).

Contudo, ele precisa vencer seus próprios metódicos transtornos obsessivos, suas compulsões, suas elegantes simétricas, suas neuroses (de um romance realista) e suas psicóticas manias para continuar “exercendo” seu propósito de vida. Ainda é desengonçado e iniciante em seu “ofício”. Seria cômico (e é), se não fosse trágico (e é). Não há como negar que a casa daqui lembra o refúgio do cineasta Ingmar Bergman na ilha de Faro.

Um dia, durante um encontro fortuito na estrada, o arquiteto Jack “bonito” e “good looking” (o ator Matt Dillon) mata uma mulher. Este evento provoca um prazer inesperado no personagem, que passa a assassinar dezenas de pessoas ao longo de doze anos. Devido ao descaso das autoridades e à indiferença dos habitantes locais, o criminoso não encontra dificuldade em planejar seus crimes, executá-los ao olhar de todos e guardar os cadáveres num grande frigorífico. Tempos mais tarde, ele compartilha os seus casos mais marcantes com o sábio Virgílio (Bruno Ganz) numa jornada rumo ao inferno.

“A Casa Que Jack Construiu” amalgama sua narrativa com digressões arquitetônicas de catedrais, conversas com arquitetos, tudo para suprir o mais. A nova dose. A próxima morte. A nova obra de arte. É um lobo em pele de cordeiro. Mas nunca perde o que de amador. Nós entramos em sua intimidade, sua relação com suas vítimas e no politicamente incorreto do humor negro. É um “Satã personificado”, com personalidade própria entre músicas de Bob Dylan e impulsos premeditados.

Entre empatias naturais, explicações das características nas ações de sua infância (cena que fez com que mais pessoas levantassem de se seus lugares e fossem embora do cinema), cenas dos filmes de Lars (um passeio por “Ninfomaníaca”, “Dançando no Escuro”, “AntiCristo”, Melancolia”)), tudo é repetição e consciência. Exemplificado com a natureza e com as pinturas de arte. Uma real anamnese para descobrir o “verdadeiro demônio” e a “essência de tudo”.

Tenta-se traduzir seu estágio do agora com o confronto das memórias do antes. O que o levou a ser um criminoso? Quais foram os traumas e pistas? “A arte é divina”, diz-se. Talvez Jack seja mais um deus vingador que um simples matador. Que busca salvar a humanidade dela mesma (que “mata animais com crueldade”) e da própria idiotização. “A ordem é importante aos animais”, sentencia-se com outra cena (responsável por mais debandada de público).

“A Casa Que Jack Construiu” não suaviza a violência. Tampouco cria sensibilidades moralistas. É nu, cru e objetivo. Prático como um açougueiro. Nós não mais esperamos misericórdia e sim quanto mais de violência será empregada. “Não olhe nas ações e sim nos atos”, diz estimulado pelos dramas dos outros. Louco? Misógino? Romântico? Ou um extra lúcido? Com suas regras morais versus liberdades. E que aqui faz piadas até com Hitler (retratação com Cannes?) e até auto picardias depreciativas. “Somos os responsáveis por criar ícones e ditadores”). E sim, tudo pululado de referências literárias e filosóficas.

O filme é mais uma versão da humanidade. Com seus descuidos finais para “ser pego”, alucinações e “consciências projetadas” (mais um que de Bergman) de um “anjo” (ator que faz uma referência a “Asas do Desejo”, de Win Wenders). E assim, “encontra-se o material do seu trabalho de sua vida”. É um mergulho na própria mente mórbida. Com o final impactante de um slow-motion metafísico em um sepulcral silêncio. Sim, o longa-metragem é uma experiência. Que lida com o livre arbítrio e as consequências divinas. E a “dificuldade de se chegar ao céu”. Lars consegue mais uma vez abrir suas portas do inferno para que nossos demônios possam descansar.

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