Tem Roman Atkinson, pelo menos

Por Pedro Guedes


Conhecido mundialmente graças ao querido Mr. Bean (cuja personalidade ingênua, atrapalhada e socialmente desequilibrada sempre rendia situações recheadas de um humor físico divertidíssimo), o inglês Rowan Atkinson resolveu investir em uma paródia da série “007 – James Bond” quando estrelou “Johnny English”, em 2003. O resultado não foi dos mais bem recebidos pela Crítica, mas o sucesso nas bilheterias justificou uma continuação, que chegou aos cinemas sete anos depois. E agora, a história se repete com “Johnny English 3.0”. A boa notícia é que este terceiro filme ainda mostra-se capaz de fazer o espectador rir; a má é que não dá para negar que a franquia já está suficientemente desgastada.

Dirigido pelo estreante David Kerr, o longa é roteirizado pelo mesmo William Davies que escreveu não apenas os dois capítulos anteriores da série, mas também o eficiente “Por Água Abaixo” e o ótimo “Como Treinar o Seu Dragão”. Aqui, porém, a trama está longe de ser o ponto forte da obra: desta vez, o agente Johnny English é convocado para investigar uma onda de ataques cibernéticos que revelou os nomes de vários espiões do MI7. Assim, o sujeito é enviado para a França, onde conhece a misteriosa Ophelia e coloca o bilionário Jason Volta no centro de seu caso.

Concentrando-se basicamente no tipo de humor que moldou a carreira de Rowan Atkinson, “Johnny English 3.0” conta com gags inofensivas que podem até não ser das mais originais, mas ao menos funcionam graças à performance do ator por trás do personagem-título: quando Johnny se disfarça como garçom de um restaurante francês, torna-se difícil não rir quando ele desastradamente rouba um celular e este começa a quicar em suas mãos. Da mesma forma, o filme é bem-sucedido ao brincar com os apetrechos high tech que costumam ser usados por estes espiões; a cena onde o magnetismo das botas do protagonista atraem vários itens metálicos para uma parede, por exemplo, é engraçadinha. E o que dizer da longa sequência em que English, jogando um game no estilo daqueles VRs que exigem óculos especiais, sai pela cidade batendo em padeiros com bisnagas e confundindo velhinhas cadeirantes com “chefões” de fases?

Por outro lado, chega um momento onde “Johnny English 3.0” se esquece de contar uma história e se transforma em uma longa sequência de esquetes centrados em Rowan Atkinson – e isto é um problema, pois o filme passa a enxergar a performance de seu ator principal como algo mais importante/valioso do que a estruturação de uma narrativa coesa. Em compensação, isto não anula o bom humor do longa, que (mais uma vez) elabora situações absurdas a ponto de se tornarem divertidas – não é sempre que aparece uma obra cujo protagonista, algemado às costas, transforma-se em professor de autoescola e utiliza a miopia de sua “aluna” para fugir de uma perseguição. E ver Johnny dançando sob efeito de drogas pode até não ser a imagem mais criativa do mundo, mas ela passa a funcionar simplesmente por que… bem, é Rowan Atkinson quem está dançando. Isso é engraçado por si só.

Trazendo Olga Kurylenko sob a pele de uma englishgirl (leia-se: as bondgirls desta franquia) razoavelmente interessante, “Johnny English 3.0” infelizmente perde suas forças em seu ato final, quando passa a investir numa quantidade exagerada de efeitos digitais irregulares e piadas que não têm a mesma graça de antes. Além disso, toda a trama impulsionada pelo vilão (cujo objetivo principal é “acabar com a Internet”, o que não faz sentido algum) consiste em um comentário social que não se encaixa bem dentro da lógica do filme – o modo como o roteiro critica a forma como as pessoas dependem da tecnologia soa tolo, deslocado e forçado demais.

Apesar de todos estes tropeços, porém, “Johnny English 3.0” ainda assim funciona como uma comédia engraçadinha e eficaz para quem está em busca de uma hora e meia de risadas despretensiosas. Sim, é verdade que a franquia não tem muito para onde ir (se é que já teve), mas isto não muda o fato de que o humor físico executado Rowan Atkinson segue divertido o suficiente.

E é uma pena, portanto, que a pior piada do filme seja justamente aquela que surge em uma das últimas cenas, o que, querendo ou não, leva o espectador a sair da sala de cinema com uma sensação amarga que quase compromete o resultado final. Quase.

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