Um filme que perde a cabeça

Por Fabricio Duque


Há quem diga que toda forma de se fazer cinema está correta se atinge seu público. Sim, máxima esta mais que verdadeira. Mas acontece uma crescente tendência que é transformar a sétima arte em uma extensão da televisão. Os filmes continuam como exemplares cinematográficos, porém suas estruturas adquirem padronizações, cacos e gatilhos comuns de novelas, produtos de massa realizados como capítulos passageiros.

“A Cabeça de Gumercindo Saraiva”, baseado na obra literária “Gumercindo” do próprio diretor Tabajara Ruas, é um desses longas-metragens importados, trazendo uma atmosfera épica histórica dos pampas gaúchos, à moda romanceada de “O Tempo e o Vento”, de Jayme Monjardim, adaptada da obra de Érico Veríssimo, assim como seu outro livro “Um Certo Capitão Rodrigo”.

“A Cabeça de Gumercindo Saraiva” é um faroeste. Um típico gênero sobre vinganças e sobre a dignidade das honras sujas de sangue. “Não é ódio, é guerra psicológica – para provar que o Gumercindo receba o que merecia”, diz-se. É sobre um tempo primitivo, sem lei e com artefatos armados e bélicos. “Castigado até depois do morto. Acredita-se que quando se separa a cabeça do corpo, a alma não vai para lugar nenhum – fica por aí vagando”, complementa-se. A cabeça degolada é o “o principal troféu supremo da guerra”.

No fim do século XIX, a Revolução Federalista marcou o sul do Brasil. Na época, o caudilho revolucionário Gumercindo Saraiva foi assassinado pelos legalistas. O filho dele, Francisco Saraiva, parte com cinco cavaleiros para resgatar a cabeça do pai (“a grandeza da missão”), cortada pelo Major Ramiro de Oliveira. “Major, não perca a cabeça!”, diz com sarcasmo espirituoso, com “música de tropa” e com câmera que passeia nas ações por drones e travellings.

A narrativa conduz-se por interpretações forçadas e didaticamente explicadas, como se ainda estivessem no estágio dos ensaios (amador como uma novela da Record), não passando convencimento e com um tom instável (não equilibrado). E pela urgência, soando o roteiro artificial demais, dramatizado demais, em seus discursos-efeitos da “mensagem fundamental para o destino dessa guerra de bárbaros”.

“A Cabeça de Gumercindo Saraiva” é também desengonçado por inserir informações demais, personagens demais, estéticas cruas com brutos enquadramentos de câmera. Tudo é naif, inocentemente ingênuo e com um que estrutural do cineasta Ed Wood, que tinha pressa para filmar mais em menos tempo. É também sensível demais, sentimental demais, teatralizado demais com suas rebatidas clichês com discursos inflamados, gritos ecoados, fuzilamentos, torturas, crueldades e com seu humor frágil e infantilizado. É cinema direto, mas sem prévia preparação. Com pausas para mostrar os cenários naturais e com o sobrenatural de sentir a presença do espírito vagando.

Contudo, um major (o ator Murilo Rosa) busca ser mais humano, tentando inserir ordem em um mundo sem regras para completar sua “missão sigilosa que não está nos manuais”. Com seus “batedores invisíveis” de uma “guerra nervosa e maldita”. Entre emboscadas, acordos, espreitas surpresas e espiões infiltrados. “A pressa é mau conselheira e Porto Alegre é longe”, diz-se e pode servir como um recado ao próprio filme para diminuir a corrida afoito. Sim, é quase um Game of Thrones versão cangaço versão pampas com “pica-paus bastardos”.

Entre a “grandeza da compaixão”, a poesia teatral, o “dom da solidão”, conversa com o morto, o filme não constrói um apuro técnico. Filma-se o que se vê e o que se encontra. É orgânico, quase alegórico, com medo do inferno, com seus fades temporais, com mel que causa alucinação, com suas digressões resumos, com seus melodramas de “humilhações”, com sua ópera, com sua s câmeras lentas, com seus moralismos respeitosos de abotoar a camisa para encontrar uma mulher e com suas redenções de final feliz É um filme que acredita nas lendas supersticiosas e que precisa “salvar a alma do pai”. “A revolução de ideias nunca estará morta”, diz enérgico, altamente utópico de “pensamentos prosaicos”. “A Cabeça de Gumercindo Saraiva” é um filme que necessita da cumplicidade do espectador para acontecer.

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