Entretenimento justo

Por Vitor Velloso


Por vezes Hollywood consegue criar um produto factualmente divertido e com um grau de entretenimento justo. O remake do “dito clássico” de 1973, traz Charlie Hunnam e Rami Malek para viverem Henri “Papillon” Charriere e Louis Dega, respectivamente, com uma proposta clara e falha.

Na trama, já conhecida por muitos, Henri é um vigarista de Paris que é preso por um crime que não cometeu, sendo condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, onde conhece Louis e juntos eles irão organizar uma maneira de escapar. A narrativa está longe de ser original, porém, alguns elementos marcam uma breve identidade, primeiramente, o fato de se passar na colônia da França, onde o clima é tropical e o país é utilizado como um reduto de prisões com torturas e trabalho escravo.

Não é produtivo comparar o filme de 73 com este, visto que diversas atualizações foram feitas e apesar da estrutura se manter, o nervo dramático de muitas questões dos personagens foram modificados. O entretenimento como uma engrenagem que impulsiona o longa ao seu desfecho, é dado pela violência, que se encontra bruta e com uma fisicalidade mais intensa. Toda a experiência possui seus altos e baixos, com trechos de monotonia que saltam para explosões de ação, isso é intencional, já que a intenção é mergulhar em uma cadeia, onde as pessoas perdem os escrúpulos e o instinto de sobrevivência já flerta com a violência pura e simplesmente, um ponto positivo. Mas o recurso torna-se uma muleta, pois, a repetida utilização do mesmo, faz ficar previsível que a tensão irá retornar para que surja um evento que abale o andamento das coisas. A consequência disto é a falta de surpresas sensitivas durante a projeção. Não que não haja acertos neste quesito, pois, determinados momentos o suspense consegue flexionar o espectador a um lugar novo durante a experiência, que pode resultar numa explosão de violência ou na frustração que os personagens dividem. Em especial quando Henri está na solitária.

Em contrapartida, somos submetidos ao senso comum da trilha sonora de David Buckley, que desenha um senso expositivo e nada original sobre o universo que vemos. O que sustenta uma boa parte do filme é sua fotografia, assinada por Hagen Bogdanski, que havia concretizado um estilo único em “A vida dos Outros” e que, aqui, retira a vividez, inclusive da paisagem paradisíaca para se ater em seus perigos, a opressão ao qual está submetida e sua impossibilidade de fuga. Por último, falaremos do diretor, Michael Noer, que fez um trabalho decente em “R”, mas que em “Papillon” se entrega a alguns vícios e parece sentir uma necessidade de modernização na temática, que já estava presente no roteiro, essa tentativa constante em dialogar com um novo público torna-se um exercício de gênero mal sucedido. Não que o trabalho dele seja tão falho que torna-se sem identidade, mas diversas composições e diálogos que se repetem do original, se encontram fora de uma nova contextualização. A intenção era criar uma história anacrônica e que pudesse se relacionar com dois períodos diferentes do cinema, acontece que com a execução que se vê na tela, parece não dialogar com nenhuma, tornando-se um produto datado no momento de seu lançamento.

Apesar da discussão sobre tortura ser atual, vide nossas discussões políticas atuais no Brasil, a proporção que se dá no longa, já foi realizada de maneira ainda mais gráfica ou dramática em diversos outros filmes, para dar um exemplo recente, “Hunger” de 2008 dirigido por Steve McQueen. O carisma de Charlie Hunnam acaba por facilitar as tensões que são reintroduzidas no projeto, tanto por sua postura canastrona ou por sua relação com Louis. Rami Malek, por sua vez, se prende a maneirismos do personagem de 73 e acaba perdendo brilho durante a projeção. E isto algo que se repete constantemente em “Papillon”, nada é necessariamente problemática, mas também passa longe de ser memorável, pendendo, sempre, ao medíocre ou o esquecível. E mesmo que o espectador admire uma cena de briga ou outra, não há muito o que se discutir sobre o filme. Ainda que possua uma carga interessante sobre a mudança radical que a cadeia promove na psique humana, não é o suficiente de servir como pilar à estrutura fílmica como um todo, muito menos narrativa.

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