Destino à busca primordial

Por Vitor Velloso


A experiência cinematográfica auto-analítica, ainda que histórica, realizada por João Miller Guerra e Filipa Reis, dispensa sinopse, isso porque a narrativa contada é apenas o esqueleto para que seu personagem prossiga na história. A verdadeira arma de “Djon Africa” são suas ferramentas estéticas, com referências gritantes, que compõem a obra como um casamento milimétrico entre a linguagem e a proposta que é dada ao público.

O arcabouço da passagem pelo campo do documentário, e todos os mestres do gênero, constrói cirurgicamente os planos do longa, com uma decupagem inteligente e uma fotografia estonteante. Os quadros são construídos numa composição de misancene documental, mas que compreende uma ingenuidade presente no protagonista e mantém uma delicadeza em seu discurso. A beleza da relação de Djon (Miguel Moreira) com sua cultura é única, sua tentativa de se aproximar de sua matriz africana, é dada com pílulas homeopáticas ao espectador. O choque cultural, natural de qualquer proposta etnográfica, se dá através de um reconhecimento no meio, não o contrário. Porém, a sedução imposta pela intimidade dos diretores com o universo que retratam é tão orgânica que sentimos fazer parte de cada centímetro daquele mundo, tudo nos parece muito cru, mas sempre real.

Em uma de seus momentos mais lindos, uma simples conversa no escuro à luz de vela, se torna uma das maiores odes à intimidade na forma de um elemento de troca experiencial. Uma interpretação religiosa sobre a estrutura familiar permeia a imagem em um tom caloroso. Enquanto vemos pequenos causos de racismo acontecerem na tela de maneira naturalizada, é possível sentir embrulhos no estômago, por maior relação com o que está ocorrendo no Brasil, uma total normatização de preconceitos. Essa doença social, não é o tema do filme, ele apenas expõe com frieza essa química distorcida entre duas pessoas de classes sociais e etnia diferentes. Terminando por expor ao ridículo a situação, nos fornece informações suficientes para que possamos compreender o preconceito, com a toxicidade que este possui, não como uma faceta isolada, mas uma deformidade de caráter.

Ainda na mesma cena, vemos uma quebra de fluxo narrativo, para que possamos contemplar um jovem se divertindo com uma música fora da diegese fílmica. É contagiante analisar como a personalidade de Djon, é refletida diretamente na linguagem e na cadência que a trama deve ter. As alegorias possibilitadas pela capacidade do projeto em desenhar seus quadros a partir da característica psicológica do mesmo. Sem dúvida, um dos planos mais bonitos do ano, está presente aqui, onde o protagonista está de frente para o mar embaixo de uma abertura na rocha As interpretações sobre o significado da composição são estreitas, por isso, sua palavra atingirá a todos da mesma maneira. A consequência para esta abordagem, se reflete em seu ritmo. Buscando o didatismo, é possível enxergar um filme-manifesto, em uma estrutura dramática.

Acho deselegante classificá-lo como “vanguarda”, pois a própria palavra é repleta de ambiguidades. Apenas uma grito de libertação, não necessariamente social, mas essencialmente cultural, já que o imperialismo destroçou a história de lá. Esta distorção comandada pelo país colônia, não reflete a veracidade dos fatos. Por isso, entrar em uma jornada que busca dar uma basta nessa ideologia europeia, é perigosa mas necessária.

Ainda que haja problemas em determinadas construções, seja de personagens ou de algumas discussões propostas, no fim, o que importa é a jornada do personagem em se encontrar na própria história e ir se desfazendo dos detalhes colonizados que há em sua postura, refletidos em seu modo de vestir e músicas que escuta. Todas suas transformações possuem uma justificativa na narrativa, que promove a reflexão do espectador diante do universo à nossa frente.

As consequências dos atos em “Djon Africa” são graves ao protagonista, mas por meio de sua disposição social, ele acena às suas dificuldades com gestos admiráveis, ainda que, por vezes, falhos ou imaturos. Determinados diálogos fere o coração de quem assiste, porém, Miguel Moreira é dotado de um carisma tão surreal que sentimos um afago em seu rosto, ainda que suas atitudes transformadas por seu arco dramático sejam gritantes. Um belíssimo manifesto.

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