O querer das doze notas

Por Fabricio Duque


O ator Bradley Cooper, após se embebedar na estrutura cinematográfica do realizador Clint Eastwood, torna-se diretor, estreante, em “Nasce Uma Estrela”, que foi exibido na mostra competitiva do Festival de Veneza deste ano. O longa-metragem não chega a ser uma refilmagem das três versões anteriores (em 1937, dirigido por William A. Wellman; em 1954, por George Cukor, considerado um dos maiores musicais de todos os tempos; em 1976, por  Frank Pierson), é mais uma homenagem ficcional a Lady Gaga, que encarna Ally.

Com sua “voz divina”, em um Drag bar, encanta e faísca Jack, o personagem vivido pelo próprio Cooper. Ainda que o roteiro busque fugir dos gatilhos comuns e de uma pieguice mais piegas, “Nasce uma Estrela” é uma remodelagem, uma versão padronizada, exatamente o que os americanos esperam (feito de e para). É também um musical contemporâneo por adentrar no universo dos shows, com sua câmera intimista e mosca, conduzida com elegância e com controle absoluto de quem a usa.

Se a trama do filme tem um que de brega (pelo tom novela – à moda de um episódio cult de uma série Netflix de ser – mais forçado e encenado, como por exemplo, dos choros sem lágrimas e ou da constante manipulação sentimental), a parte técnica salva por imprimir uma atmosfera angular não convencional. Sim, é um exemplar Clint Eastwood cuspido e escarrado na imagem e principalmente em sua forma narrativa (por não ter trilha sonora nos diálogos, os deixando secos), cuja história é iniciada na superfície e até o final não consegue traduzir o aprofundamento do “raso”.

“Nasce Uma Estrela” é mais uma relato de amor, com seus momentos felizes, deslizes pelo vício “doença” das bebidas e das drogas (uma acostumada fuga da realidade que não aceita a simplicidade da paz sem problemas), a destruição de um com todos, a redenção e o retorno a essência mais primitiva: a da rotina da alegria que estimula o tédio e o querer do precipício (despertando atitudes de defesa que magoam).. O filme não se configura como uma biografia, apesar de percebemos semelhanças com a vida de Lady Gaga (nascida Stefani Joanne Angelina Germanotta – e que a pergunta entre dez entre dez pessoas é se leva ou não o Oscar de Melhor Atriz), mas se comporta como um seguidor do gênero que relata a ascensão e queda de músicos, artistas tão perturbados que não se desligam nunca de suas angústias.

A jovem cantora Ally (Lady Gaga) ascende ao estrelato ao mesmo tempo em que seu parceiro Jackson Maine (Bradley Cooper), um renomado artista de longa carreira, cai no esquecimento devido aos problemas com o álcool. Os momentos opostos nas carreiras acabam por minar o relacionamento amoroso dos dois. “Homem é foda!”, diz-se com o “lixo antes de brilhar”. Ela olha para ele (que é a lente da câmera) e ele somos todos nós, entre inúmeros alívios mais inocentes e românticos.

Uma das novidades do filme é que Bradley Cooper, o Jack “Arizona Boy”, também canta, interpretando as canções. Esta foi uma das ideias de Lady Gaga que o convenceu a não dublar para que não caísse no erro de uma dublagem dessincronizada, fazendo com que ele tivesse aulas de canto para aumentar sua extensão vocal. Definitivamente, uma decisão acertada, visto que Cooper convence como interprete “sozinho à beira da sarjeta”, uma das músicas que canta.

“Nasce Uma Estrela” traz toda uma típica misè-en-scene dos concertos, com seus solos de guitarra, seus bastidores desnudados de consequências meio decadentes de lugares que “fazem o gênero por servirem drinks”. E é assim que a trama é desenvolvida: pelo acaso do querer da bebida. E pelas músicas. Diversas. Que traçam a época e o momento e quando conjugadas potencializa a leveza rítmica dos acontecimentos (com direito até a “La Vie en Rose”, em francês e em performance Edith Piaf). E isso só comprova o talento de Gaga de se adequar e se adaptar a todo e qualquer estilo, ainda que desafine algumas vezes.

A condução é tão ingenuamente passional que soa despreparada. Como se quisesse forçar a naturalidade pela encenação. Talvez pela facilidade da sorte que não há espaços para desenvolver os conflitos. Como músicas feitas em menos de um minuto e que se tornam sucessos arrebatadores. Saturday Night Live, Grammys… É a “lagarta que vira borboleta”.

Não podemos negar que há sim química entre os protagonistas (o brilho de Cooper, o improviso de Lady), mas até isso soa desenhado demais, articulado demais, ensaiado demais. Inclusive as picardias cúmplices do “nariz errado” de Ally, que é de Gaga (e que já confessou seu dislike no documentário “Gaga: Five Foot Two”, de Chris Moukarbel); da auto-análise da carreira musical. Ela só “precisa de uma chance para ser a nova Sinatra”. Ou “Paul Anka?”.

O filme pulsa uma energia natural, muito pelo poder da música que envolve e arrepia, tentando quebrar com sutil sagacidade o conto de fadas projetado pelo querer deles. Há magia, mas em uma versão bem menos Disney. Como a aliança de corda de violão. Como o jazz rasgado de New Orleans. Como o impulsivo casamento. “Tem que vir do fundo da alma, senão não dura”, ensina a força do sentir e colocar na interpretação quando canta. E quando a hostilidade do mundo mostra sua cara, então a covardia e o medo geram fragilidades e vencem a batalha. Uma hora consegue-se realmente fugir da melancolia e da realidade. Só resto o luto, a tristeza e a necessidade de seguir em frente. Com flashbacks de lembranças felizes com ou sem entender as “doze notas”. Nos remetendo aos dramas do filme “Dias Melhores Virão”, de Cacá Diegues.

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