O que diabos é isto?!

Por Pedro Guedes


Por que alguém decidiu lançar uma coisa como “Cinderela e o Príncipe Secreto” nos cinemas? Não, sério: como alguém pôde olhar para esta animação fajuta que não será capaz de convencer nem mesmo um bebê nascido há poucos meses e pensar: “Hum, há potencial neste filme!”. Aparentemente ostentando o nome “Cinderela” em seu título apenas para chamar a atenção das crianças pequenas, este é um daqueles filmes que foram feitos para terminarem abandonados numa prateleira de DVDs baratos perto dos caixas de algum supermercado. É simplesmente impossível acreditar que, no meio da produção de “Cinderela e o Príncipe Secreto”, houve alguém que realmente desempenhou sua função com algum tipo de amor ou vontade de ver o projeto dando certo.

Produzido na França com o intuito de entreter um recém-nascido capaz de se distrair com qualquer obra que envolva cores e personagens “engraçadinhos”, este longa é roteirizado por Francis Glebas e reconta a clássica história da Cinderela a partir do ponto de vista não da personagem-título, mas dos três ratinhos que fazem companhia à pobre donzela. Depois de ir ao baile onde encontrará o príncipe encantado, Cinderela descobre que uma bruxa má está coordenando um plano maligno contra ela – e, no meio disso tudo, uma revelação bombástica no colo dos personagens: o melhor amigo da garota é, na verdade, um príncipe que há muito foi amaldiçoado e, por isso, encontra-se sob a pele de um rato.

Deixando de lado alguns elementos que se tornaram fundamentais na história clássica de Cinderela (como suas terríveis irmãs e madrasta), esta animação é incapaz de seguir uma linha narrativa minimamente coesa: em alguns momentos, o filme pretende re-encenar uma trama que todos já conhecem; em outros, o roteiro de Glebas começa a atirar um monte de situações malucas que parecem ter saído de outra obra completamente diferente. Além disso, não há uma estrutura narrativa muito bem definida, já que conceitos importantes que deveriam ter sido estabelecidos ainda no primeiro ato acabam se atropelando depois da metade da projeção.

Os personagens, por sua vez, se resumem a uma nulidade total: há os três ratinhos, dos quais dois são alívios cômicos imbecis; o terceiro é uma criatura amargurada (embora não demonstre isso na maior parte do tempo) que, mais cedo ou mais tarde, revela-se um cavalheiro surpreendente; há uma jovem feiticeira que se pretende simpática e amigável, mas acaba tornando-se irritante e sem personalidade; os vilões têm a densidade de uma folha de papel e vomitam frases de efeito estúpidas do primeiro ao último instante (sem contar que o plano maligno deles está longe de ser dos mais inspirados); e Cinderela é apenas uma menininha fofa e bondosa que está disposta a tudo para proteger seus amigos. Agora, imagine-os como criaturas ainda menos complexas do que parecem. Pronto, você tem uma noção mais ou menos concreta de como são estes personagens.

Por fim, a qualidade técnica do projeto é algo que deveria envergonhar qualquer criança com o mínimo de “paladar estético”: provavelmente desenvolvida por algum aluno que teve de correr para entregar um trabalho atrasado num curso barato de Animação, “Cinderela e o Príncipe Secreto” impressiona na construção de seus cenários, na maneira como seus personagens se mexem ou expressam seus sentimentos através dos rostos e nas texturas de qualquer item que se encontre em cena. Mas não impressiona de um jeito positivo, se é o que pareceu – e não dá para ficar apático quando até mesmo o título do filme surge travado, como se tivesse ocorrido um problema na hora de renderizar o projeto. Para completar, a direção de Lynne Southerland investe em travellings horrorosos que são iniciados ou finalizados através de “trancos” feitos na hora de posicionar a “câmera” em um eixo. E o que dizer da montagem, que salta de uma trama paralela à outra sem qualquer senso de lógica e ainda interrompe as sequências de ação (ridículas, por sinal) com fades deselegantes.

Notem como é difícil escrever uma análise crítica de um troço como este. Ao contrário do recente “O Que de Verdade Importa”, cuja ruindade inimaginável rendia uma discussão que podia durar vários parágrafos, “Cinderela e o Príncipe Secreto” é um vácuo sem significado, forma ou propósito de existir. O fato de ter sido criado representa um acidente no meio do percurso natural das Artes audiovisuais.

E se você acabou de ler uma análise crítica de um projeto como este, é porque o autor responsável pelo texto é um tremendo de um teimoso que segue acreditando no poder argumentativo da Crítica. Mesmo quando se trata de um filme horroroso como… este.

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