Sociabilidade na cor da pele?

Por Vitor Velloso


Realizar um longa-metragem com o foco completo em questão étnica é difícil em qualquer situação. Felizmente tivemos pelo menos dois grandes expoentes em Hollywood, recentemente, que conseguiram chegar a grandes premiações e ser reconhecido como um grande filme além da sua temática: “Corra!” e “Ponto Cego”. Sim, eu aposto minhas fichas.

O diretor, Carlos López Estrada, acerta cirurgicamente em seus comentários sociais, ainda que seu vigor, às vezes, atropele o próprio conceito. A trama é simples, Collin (Daveed Diggs) presencia um homicídio, um policial atira quatro vezes nas costas de um negro. Collin está na condicional, então não quer arranjar problema, pois, só restam três dias para que seu caso seja esquecido. Porém, além da dor na consciência que o assombra, por não dar depoimento como testemunha, ele começa um conflito interno com relação à origem de sua amizade com Miles (Rafael Casal).

Diversas referências na linguagem cinematográfica ao blacksploitation, zoom, músicas e tudo que desperta nossa nostalgia, trabalhando, em alguns momentos, com pequenas vinhetas, quase vícios de proposta narrativa, mas que funcionam bem, dá dinâmica, principalmente no início do longa. Os dois personagens possuem muito carisma, porém, ele demora a ser desenvolvido, possivelmente, pela inexperiência dos atores. De fato, eles não são tão precisos nas expressões, mas há paixão ali e é isso que cativa o público com o tempo, mas demora. Todas as situações que vão se passando na história e como Collin tem medo de se envolver em qualquer coisa, pelo simples fato de ser negro e faz questão de dizer isso ao Miles “Se a polícia chegar e ver a gente com essa arma, quem você acha que vai tomar tiro? Eu ou você?”. A cena onde acontece esta fala, é a maior porrada do ano. De longe. O diálogo começa num tom duvidoso, que aparentava um vitimismo branco e quando vira é um soco no estômago.

A vontade de gritar junto com o protagonista, cresce até chegar ao ápice, uma brilhante digressão dramática-narrativa, uma espécie de clipe musical no meio da história, envolvendo um tribunal, com rap e uma luz violenta. A raiva e desespero da cena são intensos, elevam os nervos à flor da pele. Sentimos a angústia, a bomba-relógio dentro e fora de Collin. Assim como em “Moonlight”, quando ele entra na escola para se vingar de seu agressor, sentimos medo. Queremos a atitude, mas temos medo da consequência, sabemos o que vai acontecer depois. Não à toa, todo mundo gelou no fim de “Corra!”, quando a viatura chega. Pois, já conhecemos essa história.

Ao vermos um cartaz da polícia de Oakland, com um policial negro apontando na direção do interlocutor escrito “We Want You”, em clara alusão aos cartazes do Tio Sam em convocação em tempos de guerra, entendemos a acidez do roteiro. São esses pequenos detalhes, simbólicos ou diretos, que moldam a inteligência do texto. Didático na medida certa, ele pondera os caminhos que deve seguir e os faz sem hesitar, mas sempre batendo em quem deve bater e respondendo quem deve responder. A dialética fica por conta dessas digressões que acontecem repentinamente na trama. Não há apenas essa do julgamento, há diversas outras, uma envolvendo o cemitério, é igualmente brilhante. Desta vez, temos que compreender que o didatismo é uma questão de militância universalista, um dos pontos mais positivos do filme. Não é um projeto sobre um negro norte-americano, é sobre um negro.

E quando sentimos que o final está se desenhando à um meio-comum, recebemos outro tapa na cara e chegamos ao clímax. A consequência desta experiência no cinema, tem um resultado bastante específico, choque. Alguns minutos sem falar nada, ponderando algumas cenas e alguns simbolismos, fará bem ao público. Pois, ainda que algumas decisões estéticas sejam duvidosas, as atuações problemáticas e os últimos planos um pouco brega quanto à sua construção, a força do discurso da luta étnica é insana. E ao pensar na cafonice no final, devemos lembrar que o clássico “A felicidade não se compra”, tem um dos encerramentos mais imperialista, cafona e brega da história do cinema, mas ainda assim compramos a ideia, porque não fazermos o mesmo com “Ponto Cego”? Afinal, essa história pelo menos uma vez deveria acabar sem morte.

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