Uma obra suficientemente delicada

Por Pedro Guedes


A memória afetiva é um conceito com o qual todo mundo é capaz de se identificar: quem não gosta de quando uma boa lembrança vem à tona, especialmente se esta tiver acontecido em um lugar aconchegante numa época de muita alegria? À primeira vista, este é um conceito que pode soar brega e melodramático quando retratado no Cinema – em contrapartida, “Aquarius” e o recente “Benzinho” foram bem-sucedidos ao discutir este assunto, mostrando com ternura e sinceridade o quão importante é a memória afetiva. O mesmo pode ser dito ao discutir “Mare Nostrum”, outra obra que carrega consigo um centro emocional bem caloroso.

Roteirizado e dirigido por Ricardo Elias, “Mare Nostrum” começa mostrando o japonês Nakano vendendo um terreno à beira-mar para João, que passa o resto da vida morando ali. A partir daí, ocorre um salto temporal que traz a história para o presente, quando Roberto, o filho de João, volta ao Brasil depois de alguns anos trabalhando como fotógrafo e jornalista na Espanha. Carregando o sonho de publicar um livro sobre a história do futebolista Zé Carlos, o sujeito se encontra numa situação deplorável: além de não ter se tornado um escritor bem-sucedido, ele ainda carrega dívidas que ultrapassam o valor de 30 mil reais. Assim, a solução para os problemas de Roberto parece ser uma só: vender o terreno de seu pai – e, para isto, terá que enfrentar os interesses particulares de Mitsuo, o filho de Nakano, que também quer faturar em cima da situação.

É verdade que o roteiro de Elias não consegue escapar de alguns clichês – e muitos deles estão presentes na persona de Roberto, que é um “escritor fracassado”, um “pai ausente que demora a conquistar a simpatia da filha”, um “cidadão enterrado em dívidas aparentemente impossíveis de serem quitadas” e um “indivíduo que terá que se desfazer de alguns itens emocionalmente valiosos a fim de resolver seus problemas”. Desta forma, é um alívio perceber como o filme consegue fazer o personagem funcionar apesar destes clichês, levando o espectador a simpatizar com Roberto, torcer para que tudo dê certo e se identificar com sua vulnerabilidade (e muito disso se deve ao fato de que alguns dos dilemas que ele enfrenta são comuns na vida de todo mundo).

Outro elemento fundamental para que Roberto conquiste o espectador é, claro, a atuação de Silvio Guindane, que encarna com precisão os conflitos internos do protagonista sem deixar de incluir alguns momentos de leveza aqui e ali: por um lado, o ator convence como um artista que está sendo progressivamente engolido pelo fracasso; por outro, Guindane também é hábil ao retratar a vontade que Roberto sente de estabelecer uma relação saudável com sua filha. Por falar nela, Lívia Santos é particularmente eficaz ao transformar Beatriz em uma adolescente que, mesmo passando a maior parte do tempo mexendo no celular, jamais permite que este detalhe anule o carinho que passa a sentir por seu pai. Já Carlos Meceni vive um personagem que consegue ser divertido e engraçado sem que isto dilua o apreço que obviamente sente por Roberto, ao passo que Ricardo Oshiro surge como um jovem angustiado que toma algumas atitudes condenáveis, mas nunca se tornando necessariamente um “vilão”, já que suas motivações são definidas com clareza e empatia.

Instigante ao criar um paralelo entre os arcos de Roberto e Mitsuo, que são dois sujeitos frustrados que lutam para quitar seus próprios débitos, “Mare Nostrum” é dirigido por Ricardo Elias de maneira satisfatoriamente delicada: sim, é verdade que o cineasta exagera na quantidade de planos e contra-planos básicos ao enfocar certas trocas de diálogos, mas ao menos isto é compensado pelo ritmo correto e – o mais importante – pelo sentimento constante de nostalgia e afeto que permeia a narrativa. Neste sentido, a fotografia se destaca ao investir em cores quentes que conferem uma sensação calorosa às imagens que estão sendo mostradas – e a cena que abre a projeção, em especial, conta com tons cinzentos que têm tudo a ver com a melancolia (e com a chuva) do que está acontecendo.

É uma pena, portanto, que o terceiro ato de “Mare Nostrum” decepcione ao forçar um elemento mágico em uma história que não precisava tirar os pés da realidade: estabelecendo uma aura quase sobrenatural entorno do terreno que dá título ao filme, o roteiro transforma aquele lugar em uma espécie de “fonte dos desejos” (algo que ficou apenas sugerido na primeira cena do longa, quando uma chuva é subitamente interrompida assim que João pede para que aquilo aconteça). Além disso, é difícil acreditar nas reações dos personagens diante dos milagres que ocorrem na frente de seus olhos (um bom exemplo disso está presente no absurdo instante em que uma máquina de fliperama surge no meio de uma praia).

Pecando também ao investir numa trilha musical excessiva e repetitiva (o que quase faz alguns momentos do filme sucumbirem ao sentimentalismo), “Mare Nostrum” ainda assim é uma obra que funciona graças à vulnerabilidade de seus personagens e ao desempenho de Ricardo Elias, que, mesmo sem ser um Kleber Mendonça Filho ou um Gustavo Pizzi, parece saber como contar uma história delicada e afetuosa.

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