Um remédio

Por Gabriel Silveira


De início, “Uma noite de doze anos” apresenta-se com um plano de estilo que estabelece minhas expectativas de ir de encontro com uma obra que seguiria um regime de espetáculo curioso e sujeito ao perigo de tornar-se um discurso irresponsável sobre uma temática tão frágil de ser manipulada. Segue-se a narrativa do cárcere-odisseia de José Mujica (aclamado presidente Uruguaio 2010-2015) e dois companheiros de militância, Mario Rosencof e Eleutério Fernandez Huidobro. O aprisionamento da tríade tem início no ano de 1972 como um movimento estratégico das forças armadas de fazer os presos políticos de reféns após um estabelecimento maior de suas vontades dentro do regime político uruguaio; era simples, caso qualquer partido ativista de esquerda reagisse com qualquer movimentação armada, os presos seriam executados. O que levou à um estabelecimento seguro das vontades do regime até 1985, onde um plebiscito livrou a nação das rédeas de espinhos fascistas à abertura de um regime democrático, uma vitória de 80% contra 20 nas urnas que, alguns apontam como esmagadora, mas, ignorando as casualidades da sequela da doxa oprimida, o fato é assustador.

Acompanhamos a jornada dos três desde a noite da operação que os sequestrou. Desde aquela primeira noite, o corpo militar estabeleceu o que seria a práxis da vida de de cada um pelo resto daquela mais de década; os mesmos são despidos de seus pertences e encarcerados em um buraco que não dispõe de qualquer tipo de suporte à dignidade básica (onde sentar, onde deitar, onde defecar), entram numa dieta balanceada a base de pão sujo acompanhado de bitucas de cigarro e, por fim, são proibidos de falar. Não vêm ao caso discutir aqui a obscenidade das sessões de tortura aguda sofrida por aqueles indivíduos.

A estrutura geral da narrativa acaba interpolando os eixos das vivências dos personagens com questões primordiais dentro deste processo de des-humanização, como o relacionamento entre os protagonistas e suas famílias que, teimosamente, procuram entrar em contato apenas para cair num abismo de desespero inigualável, experienciando o corpo daquele amado como uma falácia castrada, assistir a desintegração daqueles espíritos a cada longo intervalo de tempo. Isso quando conseguiam acompanhar o ritmo do sistema que manipulava aquelas vidas transportando-os de presídio em presídio, numa combinação entre uma política de transporte que ora era a de um gado para o matadouro ora de uma arma nuclear de alto sigilo — como modulação do espaço da narrativa que não parecia rodar em círculos, mas sim, a esmo.

Não é como se todos estes eixos fossem coadjuvantes menores na narrativa, mas é que tudo acaba corroborando no fim para elucidar a encenação de seu objeto principal, aqueles corpos. O que se tira de potência do relato terceirizado em 12 anos é a potência da encenação daquele amargo trajeto, onde, apesar de todas as elipses e fragmentações do plano e do tempo da cena, o que prevalece é a cena em si, é a capacidade de dramatizar o indescritível daquele inferno, não como uma experiência sensorial que abre mão por completo de seu regime de narração para afundar-se na vulgaridade de um regime de mostração espetacular, um caminho que é muito difícil de resistir à tentação dentro do mindset de nossos traumas históricos como latinos (algo que fundamentou-se como canônico, acima de tudo em nossa filmografia nacional). O sofrer daqueles corpos, que são todos de nossos irmãos, não tem sede de vingança, mas é filmado e manipulado com a maior dignidade que se pode apresentar diante de um público de massa

E é desta sobriedade que os louros de 12 anos vem brilhar com mais intensidade. Alvaro Brechner foi capaz de montar uma obra completamente sóbria, desde o sucesso em sua empreitada de estabelecer a sintaxe hegemônica mais acessível às tendências contemporâneas a expurgar tais demônios dentro deste regime estético sem deixar de levar-se a sério e tratar sua matéria com respeito.

Uma verdadeira aula de empatia humana básica que deveria mais ser usada como uma ferramenta pedagógica, não somente em classes do ensino fundamental, mas ser também receitada como um antibiótico e um tarja preta àquela outra metade de nossa nação — nossos irmãos — que parecem tanto prestar graças aos antagonistas de nossa própria narrativa, às vítimas de uma síndrome de Estocolmo histórica que flagelam-se como um esquizofrênico suicida. O trauma uruguaio é o trauma brasileiro, as celas das cenas são irmãs das nossas celas do Memorial da Resistência de SP. Em tempos onde nosso violador volta a ganhar a confiança de nosso irmão doente para que esse invada nosso lar, primeiro, precisamos cuidar deste irmão. Para, então, selar as forças deste trauma para sempre.

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