Eles estavam certos!

Por Vitor Velloso


Uma das maneiras seguras de garantir o blockbuster do ano, são as animações para família lançadas já no fim do verão. Ultimamente focada nas produções da DC, a Warner lança agora “Pé Pequeno”, com o público alvo bem definido, o que é raro hoje em dia.

Os filmes à família toda, sempre foram um problema à parte, já que conciliar o entretenimento aos pais e às crianças é mais difícil que parece, por isso, a grande maioria se preocupa apenas com as crianças. Não é o caso aqui, o humor é bastante flexível, conseguindo dialogar bem com essa questão da diferença de idade. Isso tudo, só é possível, pelo carisma dos personagens. Migo (Channing Tatum), é filho de um tocador de gongo, em uma cidade estruturalmente não muito variada, a disciplina é a palavra de ordem, como uma engrenagem, porém, os habitantes não vêem de forma negativa, pelo contrário, tem grande alegria em viver em uma situação tão harmônica onde não há questionamento. Quando o protagonista está treinando para ser o próximo tocador, ele erra o alvo e sai dos limites da cidade, na montanha, neste momento, um avião cai e ele tem um encontro com um humano.

A trama é bastante simples, mas retratada de maneira levemente mais complexa. A existência dos humanos, para a cultura dos yetis, é inconcebível, pois, está nas pedras, ensinamentos sagrados das criaturas, uma espécie de bíblia. Cuidadosamente, o roteiro toma partido de diversos assuntos delicados, mas buscando não ofender nenhum lado da história, ao tratar de religião, política, sempre busca o respeito máximo. Já que o alvo, são as crianças, não vejo problema no tratamento, já que é debatido questões como fascismo, ou a clássica frase “A ignorância é uma benção”. Perigosamente, os diretores, Karey Kirkpatrick e Jason Reisig, buscam dar razões à tirania, mas depois se redimem com a conclusão desta condição.

Já no primeiro momento, vemos a qualidade das texturas da animação, principalmente nos pêlos dos yetis e na física da neve em interação com os personagens. Alguns padrões mercadológicos estão presentes, porém, são utilizados a favor da narrativa, buscando a comédia ou mesmo o drama. O dilema que Migo apresenta, em determinada altura da trama, é complexo e possui uma profundidade admirável. Suas dúvidas geram questionamentos no espectador, quanto a estrutura social que vemos na tela. Durante parte da projeção era notório que o público estava ponderando as próximas atitudes do protagonista. Isso é um feito curioso, levando em consideração que as pessoas estão ali apenas pelo entretenimento.

Ainda que haja muitos acertos em “Pé Pequeno”, é possível ver uma falta de originalidade em alguns clichês, é quase impossível assistir ao filme e não reconhecer uma forte influência de “Moana”. Uma “ilha” que possui uma sociedade ditada pelo ritmo de produção e trabalho, com limites físicos claros e uma necessidade de provar algo ao mundo. As semelhanças não param por aí, porém, ainda que muitas ideias tenham sido originadas do longa da Disney, a produção da Warner possui uma personalidade diferente, é menos despojada, mas é menos aventuresca, brevemente introspectiva. O que considero um elogio, pois, precisamos de um mercado heterogêneo.

Sem dúvida um dos arcos mais divertidos do projeto, é o do grupo que sempre duvidou das regras sociais que eram impostas à eles, retratados feito os esquisitões da vila, no fim, eles apenas estavam questionando, não a ordem não apenas como alienação, mas uma instituição. É engraçado ver que, historicamente, isso é mais comum do que deveria, a rejeição e segregação de pessoas que fazem as perguntas que “não deveriam” fazer. Lembro-me de uma pessoa aleatória no ônibus dizer, olhando para um morador de rua “Eles tratam a gente como louco, no fim, enlouquecemos porque fomos os únicos a ver que moramos em jaulas”. Esta figura curiosa, não tão absurda na capital fluminense, é um desses personagens.

“Pé Pequeno” é um longa divertido, que entretém e faz questionamentos não tão comuns nas animações. Possui uma boa dublagem, com vozes que combinam com os personagens e é plasticamente agradável de ser assistido. Acaba caindo em alguns clichês envolvendo romances e padronagens que impedem um certo fluxo na narrativa, porém, opta por não desenvolver estas pequenas amarras e prossegue a narrativa, da maneira que deveria.

  • Caro Vitor,

    Se não estou enganado, existe elementos simbólicos que são tipicamente de regimes totalitários, tais como controle da informação e centralização do poder em uma pessoa, disciplina, regras rígidas, etc. Quando vi ao filme a luz amarela acendeu. Vi como um alerta para o mundo, sobre a ascensão de regimes totalitários, como o Fascismo.

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