Clichê(s)

Por Vitor Velloso


Um dos arquétipos do cinema comercial é o “padrão água com açúcar”, que por muitas vezes funcionou, inclusive gerando alguns clássicos. “Limites” não quer ser memorável, mas quer tocar o coração de pessoas em momentos vulneráveis.

O molde foi criado a partir da estrutura do melodrama, incorporando elementos do drama propriamente dito. Mas usa um artifício que consegue sempre unir os personagens e o espectador em um único espaço de atuação e confraternização, uma viagem de carro. Mantendo-se sempre próximo do público, os atores precisam manter uma organicidade no texto e uma química funcional, ainda que não harmônica. Esta falta de união das personagens, não significa uma falta de conjuntura no trabalho dos intérpretes, já que este pode ser o eixo da relação entre eles.

Dirigido por Shana Feste, o filme conta a história de Laura (Vera Farmiga), uma mulher altruísta que vive com seu filho, Henry (Lewis MacDougall). Forçada a realizar uma viagem com seu pai, Jack (Christopher Plummer), ela terá de se readaptar à presença deste, uma figura traumática para a personalidade da protagonista. O roteiro soa tão clichê quanto é, por isso, depende de algum elemento que suporte a frágil narrativa. Vera Farmiga se esforça para ser esta base, contracenando com o Christopher Plummer, e por mais que haja qualidade no drama apresentado, não é o suficiente. As decisões estéticas e narrativas da diretora comprometem o resultado final numa face pouco original, mergulhando entre a pluralidade das emoções com maneirismos visuais e buscando sempre emular as produções da A24. Ainda que haja muito carisma envolvido no projeto, já começando pela protagonista e sua trajetória, falta densidade para diversos conflitos que são desenvolvidos ao longo da trama.

Infelizmente, a grande quantidade de diálogos expositivos exausta o espectador, Shana não tem um bom histórico como roteirista, se repetindo nos mesmos erros, sua estrutura é falha e falta personalidade em seu texto, ainda que haja boas intenções, porém, ela parece se apegar demais a questão do tempo como fator definidor da personalidade da pessoa, quando, escreve personagens que dependem mais de história que de idade. Uma característica curiosa de ser analisada, é a questão da culpa no longa. Não há a dimensão como fardo eterno, a culpa aqui dá lugar a uma forma de redenção pela terapia familiar. Assim, os erros que todos cometem são perdoados pelo próprio texto, ainda que haja cicatrizes.

O velho (perdão pelo trocadilho) clichê do idoso-adolescente está presente. Com todos os problemas que esta ferramenta possui, deve-se dizer que aqui flui de maneira pragmática. Ainda que não haja tanta naturalidade no cerne da questão, o carisma de Plummer permite que façamos vista grossa para todas estas falhas, facilitando o processo de digestão para os minutos que virão, pois, quanto mais a história progride, os arquétipos surgem e sabemos cada passo que os personagens irão dar. Essa interação formulesca com a própria proposta, fatiga a possibilidade de haver reconciliação com o público. Quanto mais avançamos na trajetória da protagonista, mais se compreende os problemas do projeto. Não enquanto produto comercial, pois, ele funciona bem o suficiente para atender a bilheteria comum. Mas, se tornará um produto com pouco espaço rapidamente. Assim como há filmes como este constantemente, há, outros, melhores estruturados e sem dúvida com maior apelo econômico. “Pequena Miss Sunshine” é um exemplo disso.

“Limites” não é um filme ruim em si, mas carece de alguma força que o distancie dos demais projetos. Shana está mais preocupada com a questão formal que se perde na estrutura, forçando sempre o longa à própria condição de “road movie”, como uma muleta, não à toa, uma imensa quantidade de clichês vêm à tona, complexando a película a uma mediocridade inerente ao material, quando no fim, estas fragilidades não dizem respeito apenas a própria formal que se impõe, mas na condição de diálogos que são apresentados como um recurso quase de ratificação da imagem. A grave falta de auto estima do longa, transparece para o público na apresentação dos esquemas pré definidos do filme. Por isso, é possível perceber quase uma mea-culpa ao final da história, quase um pedido de desculpa por não acreditar o suficiente na própria força.

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