Apenas uma baixaria vazia e sem timing

Por Pedro Guedes


“Crimes em Happytime” é o que “Os Muppets” seria se fosse direcionado ao público adulto, carregasse alguns elementos saídos de uma história policial noir e contasse com um senso de humor que extrapolasse os limites do politicamente incorreto. À primeira vista, a ideia por trás do projeto é interessante, pois não é todo dia que surge um filme onde fantoches transam loucamente e falam um palavrão a cada frase. Infelizmente, o diretor Brian Henson e o roteirista Todd Berger não parecem compreender o conceito de timing, algo indispensável para que uma comédia funcione. Assim, “Crimes em Happytime” revela-se uma experiência cansativa, sem graça e – o mais grave – terrivelmente chata.

Ambientado numa Los Angeles fictícia onde seres humanos e fantoches convivem naturalmente, o filme gira entorno do amargurado Phil Phillips, um puppet que exerceu o cargo de policial no passado, mas foi demitido após um erro de cálculo que tirou a vida de um inocente. Depois que alguns fantoches começam a ser assassinados misteriosamente, Phil resolve investigar o caso e, para isso, junta seus esforços aos da detetive (e ex-parceira) Connie Edwards. E claro que, no processo, a dupla vai se envolver numa desventura cheia de intrigas, reviravoltas, confrontos, sexo, drogas e até mesmo filmes pornôs estrelados por fantoches.

Não é preciso ser nenhum gênio para perceber a quantidade de clichês presentes no roteiro de Todd Berger, que se inspira obviamente em produções noir ao conceber a história que será contada aqui – e as principais convenções do gênero estão presentes: a trama policial; o detetive atormentado e imperfeito; a femme fatale; as sombras combinadas ao ambiente esfumaçado; a narração em off; etc. Trata-se, portanto, de uma paródia do Cinema noir. O problema, porém, é que “Crimes em Happytime” não faz absolutamente nada pelo gênero além de salpicar algumas de suas marcas registradas, sem jamais subvertê-las ou ironizá-las – e se uma paródia escancara todos os clichês de certo tipo de filme sem nunca parodiá-los de fato, então… por que empregá-los, afinal?

Este é apenas o primeiro indício da falta de inteligência do roteiro: aparentemente não reconhecendo o imenso potencial criativo que existe por trás de seu universo fictício, “Crimes em Happytime” apresenta um mundo onde seres humanos interagem com fantoches vivos, onde bichos fofinhos estrelam produções pornôs e onde uma mulher pode carregar um estômago de pelúcia dentro de seu corpo de carne-e-osso, mas em vez de se concentrar nisso, o longa prefere acompanhar uma trama policial batida e previsível. De todo modo, nada é tão decepcionante quanto o senso de humor do filme, que se resume basicamente àquelas “piadas” contadas por adolescentes que se divertem com a simples presença de um palavrão numa frase com conotações sexuais.

O pior, no entanto, é que estas bobagens poderiam funcionar se o diretor Brian Henson soubesse conferir algum timing ao que é mostrado em tela – e existem alguns momentos que, por mais constrangedores que sejam, jamais serão esquecidos pelo espectador (como aquele onde uma vaquinha de pelúcia é masturbada por um polvo; se você se ofendeu com o que acabou de ler, culpe o filme). Mas Henson simplesmente não sabe a hora de parar e insiste demais em algumas situações cômicas que já não eram das mais engraçadas (o que dizer, por exemplo, da longa sequência onde Phil transa com uma fantoche e, em seguida, passa uns dois minutos ejaculando em cima do escritório inteiro?). Já do ponto de vista técnico, o desempenho de Henson é uma nulidade que não oferece nada a ser discutido, resultando em um trabalho vazio e insignificante.

Para completar, o protagonista (dublado por Bill Barretta na versão original) é uma representação fidedigna do quão bagunçado é o roteiro: por um lado, Phil é o estereótipo do “detetive ambíguo e amargurado” que foi exaustivamente utilizado em produções noir; por outro, é também um completo imbecil que passa o filme inteiro se comportando como uma criatura incapaz de conter as palhaçadas imaturas que saem de sua boca – e as duas personas não funcionam bem em conjunto, levando Phil a soar como um anti-herói inconsistente e sem personalidade. Enquanto isso, Melissa McCarthy (que já se deu bem em outros projetos) sucumbe à mediocridade do roteiro, falha em conferir credibilidade às suas “piadas” e não faz muito mais do que… gritar.

Bem-sucedido apenas ao empregar a técnica da manipulação de fantoches, que aqui se movimentam de maneira sempre dinâmica e eficiente (há, inclusive, uma piadinha razoável onde o protagonista percebe que é difícil ler seus lábios), “Crimes em Happytime” tenta emular o humor politicamente incorreto de obras como “Ted”, “Festa da Salsicha” e “Deadpool 2”, mas se esquece de um fator que foi fundamental para o êxito destes longas: o fato de seus personagens terem “almas”. Sem isto, o que sobra é uma coleção interminável de baixarias vazias.

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