RJ Simulator

Por Vitor Velloso


Em 2013 foi lançado “Noite de Crime”, que tinha uma premissa básica mas interessante, durante 12 horas, as pessoas são liberadas para cometer qualquer crime que quiserem, sem punição. Apesar de no Rio de Janeiro vivermos algo próximo a isso, em algumas regiões, a ideia era parcialmente original e tinha um potencial grande de diversas discussões acerca do ser humano e da violência na sociedade etc. Acabou sendo apenas um exercício de gênero, mas foi super bem de bilheteria, o que rendeu sua continuação “Noite de Crime: Anarquia”, um pequeno tiro no pé. Era mais genérico, porém, ainda foi bem de público. Consequentemente, mais um filme. “Noite de Crime: Ano de Eleição”, que centralizava de vez a ação em torno do Frank Grillo. É o melhor da série até hoje, ainda que seja esquecível e cansativo. Até que um dia Hollywood decidiu escrever e produzir “A Primeira Noite de Crime”. Senhor…

É difícil dizer a alguém que gosta da franquia o quanto isso é tenebroso. É tão desconexo da proposta inicial, que chega a soar paródia de si. Há elementos individuais que buscam centralizar a trama em pequenos personagens, mas que funcionam como uma muleta para fragmentar a narrativa em diversos pontos de vista. Infelizmente, a funcionalidade do plot inicial se perde, dando lugar a um convento de equívocos, tanto na direção, assinada por Gerard McMurray, quanto no roteiro do James DeMonaco, o mesmo dos outros longas. É impressionante como este destoa da franquia, em todos os sentidos. Tem elemento sci-fi, onde os participantes do Expurgo utilizam lentes de contato com câmeras, buscando registrar suas atitudes, tudo isso financiado pelo governo, a fim de estudar o comportamento das pessoas neste teste. Em outro momento ele insere um personagem louco, que sua única função é servir de bicho papão para um dos personagens centrais.

A consequência dessas escolhas, são perceptíveis direto no ritmo do projeto, absolutamente arrastado. Piorando… Anastas N. Michos, diretor de fotografia, perde o controle na primeira cena de ação, com uma iluminação monstruosa, que interfere diretamente na percepção do espectador. Tecnicamente, a série nunca possui uma linguagem complexa ou autoral, mas sempre buscou tensionar seus dispositivos a algum lugar. Aqui, vemos uma proposta menos decupada e medíocre em ideias. Formalmente tudo está fora do eixo e isso se transfere à estrutura do longa, que toda dividida em pequenos atos dramáticos, ignora o arco dos personagens e perde a mão na única coisa que poderia garantir o ingresso, a violência. No fim, ninguém vai ver “Noite de Crime” a fim de analisar a linguagem e estudar cinema, as pessoas pagam para ver a ação, o gênero como forma fílmica, a morte propriamente dita. É quase um expurgo, no cinema. Esquecer o mundo real e ver um cara arrebentando todo mundo, ou, pessoas morrendo sem sentido. E até mesmo o entretenimento aqui, não funciona, isso porque, seus blocos funcionais dentro da história dependem diretamente da interpretação dos atores e da conjuntura entre fotografia e direção. E como nada disso atua da forma adequada, perde-se uma hora e meia tentando achar a graça na própria desgraça.

Não haverá aprofundamento em nenhum dos personagens, pois, se nem McCurray teve interesse neles, não será um crítico que terá. Porém, é necessário dizer que o gangster do longa, que serve com a figura badass do projeto, protagoniza uma cena de luta terrivelmente coreografada e vergonhosamente filmada, onde busca-se uma aproximação com a famosa cena de “Atômica”, com a Charlize Theron, um longo plano sequência de luta. As diferenças: David Leitch, diretor de “Atômica” era coreógrafo de luta, McCurray…, a câmera do David era precisa em manter a adrenalina da situação, retratar o cansaço e focar no que importa McCurray…, Jonathan Sela tem alguma personalidade, Anastas… Não basta ter apenas ideais, é necessário que haja estudo e trabalho para que o resultado seja no mínimo competente.

“Primeira Noite de Crime” foi uma aposta, não à toa mudaram o diretor, mas deram um baita tiro no pé e prejudicou a franquia. Tomara que a Blumhouse acorde e encerre de vez a série, a fim de evitar mais burradas como esta. Qualquer franquia sente o baque de um fracasso, Bourne sentiu, James Bond sentiu.

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