Berg, Berg, olha que fizeste…

Por Vitor Velloso


Peter Berg teve um início de carreira, como cineasta, duvidoso, porém, a partir de “O Grande Herói”, chamou atenção de uma pequena parcela de críticos para um tratamento político diferente do convencional, quase ufanista, mas que busca uma estética mais realista e palpável aos fatos. Com “Horizonte Profundo”, ele deu continuidade à parceria com Mark Wahlberg, para contar a história do desastre ambiental no Golfo e suas faces políticas. Até realizar “O Dia do Atentado”, o melhor, onde criava uma noção de espetáculo para a misancene de ação, ao mesmo tempo que alocava a maior densidade de patriotismo dos seus projetos.

Em “22 Milhas”, ele realiza o pior trabalho desde 2013 e erra a mão no que pode ser eleito o pior filme do verão nos EUA. Na trama, James Silva (Mark Wahlberg), é um agente da cia e tem que transportar um informante da Indonésia, Li Noor (Iko Uwais), à um local seguro que fica a 22 milhas de distância. A história é batida, uma boa parte dos longas policiais trabalham, hora ou outra, com este tema, infelizmente, aqui, a narrativa é desleixada, passamos metade da projeção se perguntando quando irá começar, de fato, os eventos que darão início ao filme. E quando parece que as coisas irão progredir, ele cria algum atraso para que possamos acompanhar a grande e bela atuação de Wahlberg, e sua muleta interpretativa, um elástico que carrega o tempo inteiro.

Iko Uwais, o astro da série de filmes “The Raid”, decepciona quem queria ver uma bela cena de luta, pois, a melhor do projeto, se passa num hospital e limita todas as possibilidades estéticas, a um jogo barato de cortes diversos e câmera lenta. Ainda que este último recurso seja utilizado de forma não tão genérica, nada impressiona, nem a coreografia, nem a ambientação que Peter Berg constrói. Aqui, deve ser feito uma ressalva, ação, não é o ponto forte do diretor, nunca foi, não à toa, o que mais se discute em “O Grande Herói” não é a ação em si, mas sim a degradação dos personagens em decorrência dessas atitudes.

E se antes podíamos comentar sobre uma construção patriótica que buscava uma reconciliação com algumas questões de culpa na história norte-americana, em “22 Milhas”, o pensamento já toma uma dimensão mais direta e nociva, sendo quase invasiva. Ainda que Berg jogue em pauta que os governos do Obama e Trump são imagens hipócritas de uma política decadentista e que vulgariza a instituições. Mas qualquer possível argumentação fica na superfície e não passa de uma desculpa para se contextualizar algumas atitudes dos personagens, estes que não possuem nenhuma caracterização psicológica que justifique alguma individualização das atuações. A que chega próximo a isso é a personagem da Lauren Cohan, Alice, mas seu drama é clichê e completamente jogado, sem a menor consistência, seja por parte do roteiro ou da própria atriz. Ronda Rousey, interpreta Sam Snow, que poderia estar aqui para protagonizar alguma cena de luta interessante ou algo do gênero, mas apenas usou a cota dos lutadores em um filme ruim de ação.

Tudo aquilo que Berg propõe em “Dia do Atentado”, é trabalhado às avessas neste projeto. E se esse conflito estético fosse parte de alguma discussão temática ou política, teríamos dois projetos antagonistas interessantes, porém, “22 Milhas” não consegue sustentar nenhuma discussão acerca de nenhum assunto. O máximo que pode-se debater, é como o personagem do Mark Wahlberg é chatíssimo. Explosivo e ranzinza, apenas compete com Bishop (John Malkovich), em qual é mais irritante. O personagem de John, é um burocrata, e como todo engravatado, apenas podemos compreendê-lo como peça de um complexo mecanismo que ignora a ação humana e força uma “diplomacia” por cima do cadáver de quem quer que seja.

Possivelmente, protagonista de um dos piores plot twists do ano, o diretor perde o controle da proposta já na primeira sequência, entendia o público e se esforça em construir uma ação política, não conseguindo nenhum dos dois. Apelando para um terceiro ato desenfreado, com um tiroteio que dura 20 minutos, o longa se prolonga em uma chatice próxima a Michael Bay. Já cotado para uma alta bilheteria, já que ufanismo vende, “22 Milhas” vai se pagar, mas espero que retire Berg da proposta mercadológica de fanfarrão que ele pregou aqui.

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