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Sempre uma boa ideia: percepções do 51o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Por Fabricio Duque


Toda e qualquer edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é uma experiência sensorial de potencializar o pensar sobre o cinema, exacerbando nosso lado politizado, visto que não há como não estar imune às influências pululantes e pulsantes. Sim, estamos na Capital do Brasil, berço da política e da democracia, lugar que futuros sociais são definidos. Estar no qüinquagésimo primeiro número é uma oportunidade para todos por estarmos às portas das eleições presidenciais.

Ao longo de dez dias, nós somos imbuídos de cargas dramáticas, temas pessoais, inovações estéticas, narrativas plurais, militâncias de gênero, existências empoderadas, discursos subjetivos e ou coletivos. Nossa força parece ficar mais potente, mais lúcida, mais argumentativa, mais delineadora, mais fluida, mais tudo e mais um pouco. Nós preocupamos mais com o sustentável, com o humano, com a liberdade e com a voz que todo e qualquer indivíduo precisa e deve ter.

O Festival de Brasília é também integrativo ao disponibilizar sessões não só no Cine Brasília e no Museu Nacional, mas em diferentes Cidades Satélites. Com programação igual e não excludente. Os espectadores, público e ou crítica e ou realizadores e ou equipe dos filmes e ou profissionais que batalham arduamente para que tudo esteja perfeitamente alinhado, embarcam numa programação que analisa o social, que estreita o espaço da utopia com sua possibilidade, sem esquecer da mobilidade da áudio-descrição e da linguagem de sinais.

Há três anos à frente da direção Artística de Eduardo Valente, amalgamada com o cuidadoso trabalho de Guilherme Reis, também Secretário de Cultura, rodeado pela precisa e atenciosa equipe da logística, credenciamento, produção e de todos os ativamente envolvidos, o Festival cria uma imersão à sétima arte, questionando o cinema como parte integrante e não um mero atrativo comercial. Todos os filmes têm igualmente sua importância. Não há hierarquias entre longas, curtas e animações.

Apesar de seu ritmo corrido e do inevitável e esperado cansaço consequência, a cobertura do nosso Vertentes do Cinema pode fluir sem percalços, com suas coletivas de imprensa (debates pós-filmes) que podem ajudar e ou atrapalhar a opinião final, mas que sem dúvidas é um excelente mecanismo de pensar junto o vício cachaça que é o cinema.

Diferente do ano passado, até mesmo pela chuva constante que amenizou o clima seco, os encontros seguiram por uma linha mais condescendente, de não tanto embate como foi o caso de “Vazante”, de Daniela Thomas, e “Por trás da Linha de Escudos”, de Marcelo Pedroso, ambos da edição anterior. Todo esse junção traz um conhecimento, uma formação, como um período inteiro de uma faculdade de cinema. É sempre imperdível e inquestionavelmente obrigatório.


Achismos especulativos dos Possíveis Vencedores


Melhor Longa-Metragem da Mostra Competitiva: “TEMPORADA”, de André Novais Oliveira.

Melhor Curta-Metragem da Mostra Competitiva: “LIBERDADE”, de Pedro Nishi e Vinicius Silva.

Melhor Filme da Mostra Caleidoscópio: “INFERNINHO”, de Guto Parente e Pedro Diogenes.


Troféu Vertentes do Cinema


E mantendo a tradição de despretensiosamente escolher os filmes que mais impactaram fisicamente e narrativamente, o Troféu Vertentes do Cinema listou seus favoritos.

Melhor Longa-Metragem da Mostra Competitiva: “TORRE DAS DONZELAS”, de Susanna Lira.

Pela potência empregada de humanizar vidas, existências políticas e histórias. Pela coragem em enfrentar a memória. Pela despretensão de construir uma ponte entre o emocional não clichê e a fluidez de uma narrativa não estereotipada. Pela tradução não política de um tema altamente político. Pela encenação vanguardista de pulular o sensorial. De rasgar a inflamação do discurso. Pela perspicácia do humor espirituoso, livre e liberto. Pelo controle absoluto da direção de Susanna Lira, que sabe ouvir para ressignificar a verdade enquanto instrumento cinematográfico.

Melhor Curta-Metragem da Mostra Competitiva: “PLANO DE CONTROLE”, de Juliana Antunes.

Pela inovação imagética da conjugação estética. Pela livre despretensão de construir uma ficção científica. Pela forma de condensar dois mundos, a fantasia com a realidade. Pelo resgate de uma memória distante e desgastada pelo tempo. Pela impulso e frescor de nortear uma solução. Pela afiada abordagem em criticar o universo nosso de cada dia. O de ontem e o de hoje. E pela percepção de que ainda estamos presos em um etéreo passado do agora.

Melhor Filme da Mostra Caleidoscópio: “OS JOVENS BAUMANN”, de Bruna Carvalho Almeida.

Pela inovação estética de conseguir captar um passado e uma época. Pela nostalgia imbuída de descortinar a percepção de tempo e espaço. Pela suspensão da imagem. Pelo tom e pelo som imersivo de construção da espontaneidade cênica.

Melhor Filme (pelo quesito coração): “INFERNINHO”, de Guto Parente e Pedro Diogenes.

Pela emoção despertada de nos tirar de nós mesmos e nos mergulhar em um mar de desejos e quereres. Pela cinefilia de referenciar tudo, mas conservar a atmosfera livre e humanizada de existências errantes, protegidas na diferença da tolerância do meio acolhido. Pela leveza e delicadeza de aceitar a amadora ingenuidade da vida. Pelo coração empregado ofertado aos outros corações olheiros.

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