Pulsar a vida com a morte

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2018


Há muito o cinema brasileiro diversifica possibilidades de se contar histórias, ampliando estéticas e narrativas, principalmente se falarmos do gênero de terror, mais psicológico que explícito, que é utilizado atualmente. Que alguns chamam de pós-terror, o horror moderno e metafórico, termo que causa taquicardia nos mais clássicos dos cinéfilos. “A Sombra do Pai” é mais um desses exemplos ao suspender o tempo presente, criando uma epifania, uma ressignificação inconsciente do etéreo renascer.

Exibido na mostra competitiva da quinquagésima primeira edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o longa-metragem corrobora a versatilidade de sua diretora, Gabriela Almeida Amaral (com um controle absoluto da direção em chegar no exato resultado) que nos apresentou um universo à moda de Quentin Tarantino em seu anterior “O Animal Cordial”, e que se aprofunda em parte no curta-metragem “A Mão Que Afaga”. Há quem diga que uma mentira não se sustenta. Se a realizadora consegue a maestria de repetir pulsações e sensações, então sim o talento existe.

“A Sombra do Pai” é uma obra de ambientação psicológica, de iminente sensação de terror, de um mal que se instaura, de tempo construído, de uma percepção que já estamos mortos e sobreviventes sociais. No filme, nós somos assaltados por um medo crescente, mergulhando de “A Espinha do Diabo”, de Guilhermo Del Toro (ainda que Gabriela diga que não há nenhuma referência a esse e sim que sua fonte de inspiração foi “O Espírito da Colmeia” (1973), de Víctor Erice), a “Twin Peaks”, de David Lynch. Passando por John Carpenter. Pois é, toda essa subjetiva consequência é a melhor característica da sétima arte. De cada um sentir o filme de modo único.

É inevitavelmente que muitas referências cinematográficas sejam pululadas e lucubradas, algumas mais perceptíveis, citadas e explicitadas no decorrer da trama: “Cemitério Maldito” (1989), de Mary Lambert; e “A Noite dos Mortos Vivos” (1968), de George A. Romero), e outras mais implícitas, como “A Profecia” (1976), de Richard Donner, entre tantos plurais exemplos que cada um encontrará, que nesta aqui visualizou similaridades com “Trabalhar Cansa” dos brazucas Marco Dutra e Juliana Rojas. Pois é, há quem diga que esta é uma experiência aos nerds, por causa de um maior comprometimento em despertar nossos medos, e da predileção obsessiva, desde criança de sentar à frente da televisão e assistir filmes de terror norte-americano, “toscos e dublados”, categoria que Gabriela se inclui.

Sim, também. Mas “A Sombra do Pai” jornadeia uma narrativa de sutilezas, de detalhes, de precisos sustos necessários. De economicidade interpretativa, que vemos mais com os silêncios que a necessidade de se explicar mastigada e didaticamente o depreender. É também um Ingmar Bergman, por transpor uma loucura internalizada e um luto persistente, imprimindo o abstrato ao imagético, simbolizado e complementado pelo realismo fantástico do universo dos zumbis, de mortos-vivos alienados que já desistiram da própria vida pela incapacidade de superar os sofrimentos. Tudo pela brutalidade do concreto que enterra a esperança lúdica e a fé. No debate pós-filme, foi dito que é “um filme sobre o amor”.

“A Sombra do Pai” é um filme de vários também. Tudo pode ser uma personificação do sentimento mais básico, selvagem e mórbido que há em todo e qualquer ser-humano, que compartilha socialmente suas idiossincrasias, predileções e sincretismos religiosos, logicamente pela grande influência da macumba ancestral. E que encontra engessamento na estrutura impositivo e obrigatória do trabalho, “um “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, do terror”. É uma crítica contra esse “capitalismo do trabalho”.

É também autossuficiente. O que assistir está ali, associando harmoniosamente técnica e tema. Conceito e edição. Estética e agilidade. A montagem de Karen Akerman, cadenciada, equilibrada e traduzida dos porquês, constrói o apurado, cuidadoso e primoroso ritmo de navegar entre dois mundos: o cético e o emocional. O realismo e a fábula. O orgânico e o racional. Que buscou base na filmografia de Alfred Hitchcock e sua “suspensão do tempo”.

“A Sombra do Pai” é acima de tudo um grito de socorro. Sem histeria pela estranheza normalizada. De conservar com uma última jogada a permanência da família. Disfuncional, ausente e que está longe de ser normal, com saídas ao parque e o voo do balanço. É crítico porque desestrutura a massificação e o imaginário projetado da felicidade. Estimular a confiança do outro próximo com a cumplicidade (das “bruxarias magia branca”) e a perda do medo da realidade (a trança da mãe, a correntinha, os ossos do caixão). É um universo desprovido de pseudo-proteções. Ainda que a tia supersticiosa tenha limites medrosos com o sobrenatural. É uma conversa com espíritos. Os fantasmagóricos e os presentes.

Dalva (a atriz “meio mulher” Nina Medeiros), uma menina de nove anos, que se cuida sozinha e que brinca com a atmosfera sobrenatural do jogo do copo, por exemplo, se torna responsável por sua casa quando seu pai, o pedreiro Jorge (o ator Julio Machado), fica doente. Órfã de mãe, ela precisa deixar de lado a infância para cuidar do pai “torpe”, que por sua vez, tem que lidar com a frustração de perder aspectos de sua paternidade. Que cria sua árvore capilar (como uma alusão à fábula de “João, pé de feijão”.

Outras questões são pontuadas. A masculinidade toxica cimentada, a inversão de papéis, a indiferença ao outro, a individualidade de cada um por si. A desistência que gera depressão. Tudo por uma trilha sonora híbrida mais industrial de imersão. De som metálico, de ruídos de suspenses, em um tom “Blade Runner”. Pela química espontânea de seus atores. Nina é o corda da volta. Julio, o ser desenvolvido pelas camadas expressivas – a olheira inicial, o rosto mais afinado, as feridas mais podres) que precisa ser salvo e afagado. E pela fotografia que cria o classicismo raiz da sobreposição das imagens.

Quando a mente precisa da última auto-proteção, pregando peças, alucinações, aparições, loucuras defensivas e ou criações do real são possíveis e alimentadas. É uma fuga, um último ato de pulsão de vida: o se permitir morrer. E o rezar cria também um refúgio contra os “Walking Dead”. É o ridículo da vida pela qualidade do olhar à moda de “Les Revenants”, de Robin Campillo, com um que modernista de Nicolas Winding Refn, sem ser “art house”. “É uma inconsciência não racional de captar as fragilidades”, define Gabriela, que ama “artifício cinematográfico”, principalmente o do cineasta Douglas Sirk. E “trabalha o cinema a partir do patético”. “O horror brasileiro é uma questão sociológica”, finaliza. É o morrer e o renascer dos “três pilares: a infância porosa; o erotismo e a política”. Com a figura do soldador, a figura da morte iminente. Tudo é uma junção poética. “A Sombra do Pai” pulsa a autoralidade do construir e da luta pela permanência da diversificação das criações.

Críticas Relacionadas

Crítica + Vídeo: O Animal Cordial

A chave que liga a loucura nossa de cada dia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados