Uma aventura clichê, mas divertidinha

Por Pedro Guedes


Muitas pessoas talvez se lembrem de Eli Roth como o “Urso Judeu” que, com seu taco de baseball e expressão sádica, marcou presença em “Bastardos Inglórios”, dirigido e escrito por seu amigo Quentin Tarantino. Mas não é só: responsável por filmes como “Cabana do Inferno”, a trilogia “O Albergue” e a recente refilmagem de “Desejo de Matar”, Roth construiu uma carreira como cineasta e, como podem perceber, tem um gosto bem particular por aventuras que envolvam sangue e violência. Assim, é surpreendente que seu novo longa seja “O Mistério do Relógio na Parede”, uma aventura leve e ingênua que em nada remete às obras anteriores do diretor – e não deixa de ser curioso que Eli Roth seja amigo de Robert Rodriguez, que num momento está apresentando filmes pesados como “A Balada do Pistoleiro”, “Sin City” e Planeta Terror”, mas em outro está se dedicando a produções infantis como “Pequenos Espiões” e “As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl”.

Baseado no livro homônimo que John Bellairs publicou em 1973, “O Mistério do Relógio na Parede” se passa em 1955 e enfoca o pequeno Lewis Barnavelt, que, depois de tornar-se órfão, vai morar com os tios Jonathan e Florence em um casarão que logo começa a revelar algumas esquisitices. O que Lewis não esperava, porém, é que o lugar se comportasse assim por causa de antigas bruxarias praticadas por seus tios, que pertencem a uma família de feiticeiros e vivem estudando as artes da Necromancia. Com isso, Jonathan e Florence resolvem treinar o garoto para que ele se transforme em um feiticeiro eficiente o bastante para se defender do terrível Isaac Izard, o antigo dono do casarão que pode retornar a qualquer momento como um fantasma.

Espera aí: um menino órfão que vai morar com os tios, como Harry Potter e Peter Parker? Dois feiticeiros que resolvem ensinar feitiçaria ao garoto, como os professores de Hogwarts? Uma casa mal assombrada, como em… bem, um monte de outras obras que envolvem casas mal assombradas? A verdade é que não dá para acusar “O Mistério do Relógio na Parede” de plagiar as propriedades intelectuais mencionadas, já que o livro de John Bellairs foi escrito bem antes de J.K. Rowlling encantar gerações de leitores com “Harry Potter” e de Stan Lee e Steve Ditko presentearem os fãs de super-heróis com o Homem-Aranha. O problema, no entanto, é que esta adaptação dirigida por Eli Roth só está vendo a luz do dia agora, em 2018, anos depois de tudo isso chegar aos cinemas. A impressão que fica, portanto, é a de que “O Mistério do Relógio na Parede” é um filme feito tarde demais, sem apresentar qualquer tipo de frescor em sua feitura.

Mas o excesso de situações batidas não é o maior problema do longa, que é prejudicado especialmente pelo fraco roteiro escrito por Eric Kripke: além dos já citados clichês, o projeto inclui uma série de frases de efeito e diálogos expositivos que jamais soam naturais saindo das bocas dos atores. Todavia, o que realmente compromete o roteiro de Kripke é a falta de coesão narrativa, já que existem duas tramas ocorrendo em paralelo: a primeira acompanha o amadurecimento de Lewis tanto como pessoa quanto como feiticeiro; e a segunda enfoca os tios do menino lidando com o possível retorno de Isaac Izard. O roteiro simplesmente não parece saber qual das duas histórias é a principal e, ao tentar interligá-las, acaba criando uma confusão desnecessária (e o terceiro ato, em especial, é mais bagunçado do que deveria).

Felizmente, “O Mistério do Relógio na Parede” é praticamente salvo graças a um quesito específico: a construção de seu universo fantástico – que, mesmo sem ser dos mais criativos, ao menos é charmoso o suficiente para capturar o interesse do espectador. Criando uma fusão eficaz entre o estilo estético típico dos anos 1950 e a magia exalada pelo casarão que abriga boa parte da narrativa, o designer de produção Jon Hutman imagina um mundo onde sofás têm rostos, onde imagens pintadas em vitrais têm vida própria e onde as cores mais intensas dos feitiços conjurados pelos personagens se contrastam às muitas sombras que tomam conta do ambiente. Além disso, não deixa de ser interessante notar como os truques de mágica parecem contar com suas próprias cores, alternando entre o vermelho, o roxo e o dourado com elegância.

Já o elenco cumpre sua função de maneira bastante apropriada: embora tenha se apegado a um conjunto de caras e bocas que quase o transformam em uma paródia de si mesmo, Jack Black é hábil ao encarnar o tio Jonathan como um sujeito dividido entre o apego que sente pelo sobrinho e a frustração que carrega por não conseguir esconder seus medos particulares; Cate Blanchett parece estar presente mesmo para relaxar e se diverte ao conceber a tia Florence como uma figura magnética e cheia de tiques (ainda que, desta vez, a atriz exagere um pouco no overacting); e o pequeno Owen Vaccaro surpreende ao conferir pureza e vulnerabilidade a Lewis, que, carregando um vácuo emocional deixado pela morte dos pais, tenta preservar as pouquíssimas amizades que cultivou na escola sem deixar de lado suas responsabilidades enquanto feiticeiro.

Mesmo tornando-se mais longo e arrastado do que precisava, “O Mistério no Relógio da Parede” é uma aventura que pode até não ser das mais memoráveis, mas ao menos funciona como um passatempo razoavelmente divertido e envolvente. E quando o espectador sai do cinema com a vontade de saber mais sobre o universo fictício que visitou nas duas horas anteriores, é porque alguma coisa o filme fez do jeito certo.

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