Utopias no limite tênue da pretensão e da ingenuidade

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília de Cinema Brasileiro 2018


O cineasta François Truffaut disse e escreveu que o resultado de todo e qualquer filme é responsabilidade absoluta de seus realizadores, e até criou em “A Noite Americana” uma crítica crônica-metalinguagem ao próprio meio profissional. Este passou a existência profissional estudando, ouvindo, questionando e se permitindo buscar referências a fim de embasar com técnica suas ideias e ideais. É o cinema autoral e de conceitos reinventados, que alimentava o cotidiano do outro para perpetuar ações, construtivas e ou descartáveis. É um olhar de cúmplice julgamento permitido, de respeito mútuo às divergências.

Se o francês, ainda que interiorize uma pretensão, Ed Wood, considerado o pior diretor do mundo, partia à idiossincrasia ingênua, de acreditar tanto no próprio “taco” que colocava em segundo plano o estilo formal cinematográfico, para que assim pudesse libertar a própria vontade, exacerbando a individualidade e mitigando parâmetros de mensuração à qualidade das cenas, filmadas na urgência da unilateralidade do querer. Este transmitia uma instantânea necessidade passional, abrigada na pressa do criar, como se “fosse tirar o pai da forca”. É o cinema imaturo, adolescente, afoito, imprudente, precipitado, de rascunho ensaiado, inocentemente narcisista.

“Ilha”, dos diretores baianos Ary Rosa e Glenda Nicácio, integrante da mostra competitiva da quinquagésima primeira edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que venceram o Júri Popular na edição passada com o filme estreante “Café Com Canela”, é uma obra plural, que tenta abarcar questões sociais e intrinsecamente traumáticas e existencialistas de suas personagens, optando propositalmente pela narrativa caseira, de se manter como um “cinema de interior fora da rota”. A decisão utópica busca “descaretar o cinema”, termo cunhado na coletiva debate pós-exibição, na manhã de hoje aqui em Brasília.

É um longa-metragem quase cem por cento Ed Wood que François Truffaut, principalmente por impor não uma homenagem ao cinema marginal e subdesenvolvido de Rogério Sganzerla, tampouco na pungente estrutura de Glauber Rocha (“Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”), mas sim uma seriedade de crença de se reinventar. Esta pretensão incomoda pela crua obsessão de repetir clichés, reações de efeito, frases prontas já batidas e fora de contexto, ainda que com um almejo de restaurar no presente uma atmosfera nostálgica, atemporal e revolucionária.

Talvez “Ilha” seja um dos filmes que mais cause desconforto ao espectador, negativamente falando, por separar nosso desejo da espera da qualidade pela obrigatoriedade condescendente (de uma mãe que nunca enxergará o fracasso do filho) de uma pseudo linguagem inovadora que se adentra na epifania primitiva das mais básicas sensações humanas. Há quem diga que uma conversa posterior com os realizadores possa fazer com que o filme cresça. Mas neste especificamente o contrário é infelizmente dominante, pela incapacidade de se desligar do complexo de Narciso e aceitar suas fragilidades.

Não podemos deixar de analisar também que transpor uma premissa à tela grande é uma arte que se embebeda essencialmente no subjetivismo (caso à caso de todo e qualquer realizador independente), visto que cada espectador recebe a experiência fílmica de um modo, motivado pela própria percepção do mundo e ou pela massificação do universo ao redor. E sim, não há nada de errado, tampouco abominável, na estrutura narrativa do anti-naturalismo. É um conceito e uma livre opção, enquanto objetivo e propósito. Contudo, este é uma obra autossuficiente, ainda que pela condução mais caseira das licenças poéticas. Saber lidar e abordar traumáticos temas é uma maestria, que nasce por dom e ou pela ampliação do olhar e do ouvir, precisando-se da desconstrução para ressignificar a força do próprio argumento.

“Ilha” até tenta desconstruir a própria forma da construção pela interferência recorrente da metalinguagem e pelo tom tosco e amador da imagem. Mas o que quer ser conceito (“cinema de reflexão”) soa mais como imaturidade. Aborda-se uma misè-en-scene crua, direta e teatral, cujo material bruto, seus atores, investe mais na soltura despreparada que no aprofundamento das camadas temáticas. Só que também há um contraste logo no início, quando as primeiras cenas são intercaladas pelos burocráticos créditos dos apoiadores. Que mais uma vez destoa o filme dele mesmo.

Seu formato também não ajuda, mesmo que a premissa, metafísica de reconstituir a dor pela encenação seja interessante, de estreitar os limites tríplices da ficção, da realidade e da representação etérea da projeção do confronto das duas. “Plano aberto ou close para mostrar o sofrimento? Assim faz sombra no rosto”, pergunta e complementa com “Isso não é brincadeira, é cinema”. O filme traz uma reflexão sobre a arte do cinema e de como se pode sobreviver neste meio tão “complicado”.

Talvez para entender a proposta precisamos ouvir as frases inseridas, como “o foco errado faz parte da linguagem”. Não, não é. Desculpa por discordar. Até porque se levarmos em conta o todo, perceberemos que há uma desesperança inicial, um vitimismo de se colocar no papel de profissionais impedidos de exercer a arte. E os tantos outros que conseguem? A Alumbramento Filmes está aí para provar o contrário. Há quem diga que os sem talento enaltecem suas dificuldades. Sim, é tudo uma questão de escolha. E cada um precisa lidar com suas consequências e desdobramentos. Aqui, “o cinema não dá dinheiro” e sim a venda de drogas do traficante criminoso, retratado como cinéfilo, sensível e livre sexualmente.

A sinopse oficial nos conta que Emerson, um jovem da periferia, quer fazer um filme sobre sua história na Ilha, lugar onde quem nasce nunca consegue sair. Para isso, ele sequestra Henrique, um premiadíssimo cineasta baiano (conseguir “coisas mais orgânica sem a intermediação da agente”). Juntos, eles re-encenam a própria vida, com algumas licenças poéticas. O plano começa e, a partir de então, não há mais limites, afinal, cinema também é jogo. Não há como não inferir a “Hail, Caesar”, dos Irmãos Coen. “Rodar o filme que já está rodando”, diz com extrema inocência. É uma “autobiografia com algumas licenças poéticas”. “Sinto falta da solidão de um plano e outro, pouco dinheiro e muita vontade”, é dito.

“Ilha” é uma gangorra sem volta ladeira abaixo. Desengonçado, artificial, forçado, esculhambado, estereotipado, completamente fora de tom e com diálogos que mais parecem decorados e que ainda estão no ensaio. É isso. O que vale é o ensaio e não a cena final. É uma utopia infantilizada de jargões, de auto-ajuda e nivelados por baixo, do mundo do cinema. Filma “o que está por trás da ficção”. “O silêncio é a resposta dos grandes homens”, diz. Não, por favor. Apenas pare com as pululantes patéticas e ridículas fragilidades. “Aqui os filmes são subdesenvolvidos por natureza e vocação”, frase esta que praticamente é uma confissão à falta de preocupação com a qualidade. Com suas vaidosas performances contemporâneas que querem ser Claudio Assis. “Você tem Beck (maconha)?”, “Você acha que eu vivo de que?”.

Entre o confronto dos limites do ator (se “beijaria outro homem por dinheiro”), a preparação de elenco nível Fatima Toledo, interpretações “toscas” (adjetivo este usado no próprio filme para descrever o resultado), a inclusão Charles Chaplin, a videoteca particular com Jeca Tatu, a morte do cachorro, a Síndrome de Estocolmo (que de inferência inteligente vira explicação didática mastigada ao público), a cena final que lembra “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, o cinema tendendo ao visceral, os assuntos abordados bruscamente e mecanizados, tudo é uma enxurrada de necessidades. Mas nem tudo configura crítica. Há poesia no retorno do tesão do filmar, na cena de sexo gay fora de quadro (“o olhar da morte é igual o olhar do gozo”), na universalização do existir (sem determinar cores – um filme que “poderia ser com negros e com brancos”, diz o ator Aldri Anunciação). E parafraseando o que foi dito no filme “O roteirista vive de mentiras”, então este é uma grande inverdade? Pois é, não há mesmo parâmetros. É colocado tudo o que se filma. Tampouco há filtros analíticos, recheados de discussões contra o moralismo e à favor da “coragem no cinema”.

Concluindo, talvez sobre coragem demais em “Ilha”, causando uma inatingível e invulnerável zona de conforto, em que a preguiça não é percebida. É um filme que não tem medo do ridículo. Que quer “permitir trânsitos a partir de movimentações de câmera”, mas que encontra o engarrafamento e o próprio engessamento, auto-construído.

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