O peão que não segurou

Por Gabriel Silveira


“Coração de Cowboy” prepara sua intenção inicial, desde seu argumento, como uma procura de estabelecimento e validação de um mito e uma iconografia popular não muito rica em referências/paralelos dentro do cânone cinematográfico. Enquanto o circuito hollywoodiano já tem a carta da jornada de ascensão, queda e redenção dos artistas do grande circo (seja numa biopic ou novas personagens), nossas salas não chegaram ainda a estabelecer uma safra verdadeiramente fordista da fórmula do produto; Coração vem, justamente, tentar preencher este vão. Tentando analisar a obra anacronicamente — fugindo da teleologia de seu roteiro — conseguimos compreender a intenção nos esforços da produção de estabelecer um universo melodramático digno de um sobrinho cool e low-profile da era de ouro mexicana; de primeira, este já tornaria-se um objeto de estudo interessante: um exercício estético cultural onde todo o léxico da cultura sertaneja contemporânea e seu status-quo pudesse ser explorado (a coexistência e diálogo ativo com outros gêneros musicais e culturas de massa).

No entanto, infelizmente, desde suas primeiras sequências dentro de seu ato de abertura, Coração expõe um grupo de fraquezas que virão a reger sua encenação até o fim da projeção. Os protagonistas do primeiro momento da narrativa nos são apresentados sob as lentes de um filtro nostálgico imagético televisivo, o color grading róseo acompanhado por uma tonalidade lavada de suas sombras que é apenas complementado pela neblina da máquina de fumaça usada para ambientar o bar onde a dupla de irmãos performa um show com a formação original de sua banda, ambos os meninos e uma amiga. O interesse amoroso de ambos pela menina resulta em um conflito onde nosso protagonista deixa de acompanhar seu irmão na volta para casa e este acaba morrendo em um acidente de carro na mesma noite. Anos passam-se e o protagonista torna-se um músico de sertanejo universitário endinheirado que nunca conseguiu superar a morte de seu irmão, evento que, por consequência, acaba destruindo grande parte de seus laços afetivos. O neo-sertanejo resolve então procurar sua redenção no encontro com suas raízes, retornando tanto para sua cidade natal como, também, para composições inspiradas no sertanejo clássico e do final do século XX.

Como afirmei anteriormente, é verdadeiramente uma proposta interessante de se exercitar (como produto de massa), mas, infelizmente, Coração decepciona muito quando decide manter a essência da encenação de seu ato de abertura pelo resto de toda a projeção — os adolescentes que expressam emoções rasas e incapacitadas de cadência vêm a resultar em adultos que, definitivamente, não sabem fazer melodrama num mundo de cantoria e instrumentação dessincronizadas tão estéril quanto a intenção da produção do filme decidir tapar as marcas dos instrumentos cênicos com fita isolante por conta de uma péssima política de merchandising. Num ponto final, não ataco o filme, dirigido por Gui Pereira, por suas decisões de encenação, apenas por confirmar-se como um produto surdo e sem contato com sua audiência objetiva que preza por uma verosimilhança crível em seu melodrama, que não espera chegar numa sala de cinema ou hub de streaming para ver exatamente a mesma coisa (talvez uma versão piorada) do que se passa no canal 4.

(Ranço Extra: Acaba também revelando algumas intenções duvidosas. A utilização de alguns movimentos de câmera que remetem diretamente a modas de produtos contemporâneo materializam-se como gimmicks baratos, como uma decisão tomada pelo diretor de campanha que procura à linguagem da garotada, resultando naquele plano de acordar onde a câmera, presa ao dorso do ator, acompanha a face do mesmo em um movimento de 90 graus. O que é muito constrangedor quando se pára e percebe que o texto do filme parece gritar e espernear que o realizador do filme não passa de um (aparente) diretor de publicidade que resolveu pegar um roteiro para dirigir, como se nem ao menos fosse capaz de expressar referências básicas no comando de sua encenação, cultivando performances de saldão de catálogo de uma agência zona sulista de atores ao lado da diegese mais articulada e falha do que a de um Tommy Wiseau).

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