Lutas em vitrines expostas e bloqueadas

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2018


Em “Ensaio Sobre a Lucidez”, o escritor português José Saramago criou uma utópica fábula socialista, que se pauta não no protesto-guerra impositivo, mas sim em uma aguçada perspicácia de se acreditar completamente na essência de uma causa não individualizada. É o povo, no coletivo, que resolve os próprios impasses contemporâneos, criando uma comuna auto-suficiente, de retorno à estrutura do escambo.

Se, no livro, a alegoria é ficcional, no documentário, “Bloqueio” adentra em observação analítica, traduzindo a militância de caminhoneiros que lutam por melhores salários, pela isenção dos eixos na estrada e pela flexibilidade das multas (e perda de pontos na carteira) pelo tempo de passagem do “sinal amarelo ao vermelho”. A narrativa segue e acompanha os grevistas, que interrompem suas viagens de trabalho e bloqueiam as estradas para “criar o caos”, e assim “consertar o Brasil”.

Dirigido por Victoria Álvares e Quentin Delaroche, o filme é um novo olhar sobre o acontecimento recente que parou o país, porém em hipótese alguma é condescendente, comportando-se como uma crítica a um povo, que por sua vez integra a sociedade em que vivemos.

Ao ouvir seus discursos, nós percebemos suas contradições, suas ideias prontas sem argumentação, suas orgânicas idiossincrasias que se conflitam nas próprias necessidades. Ora a favor da “Intervenção Militar Já!” (“o nosso socorro” – para acabar com a corrupção e re-instaurar a “ordem e o progresso”). Ora contra o comportamento “moleque” dos mesmos.

“Bloqueio” é um documento antropológico. Que desnuda e desmascara opiniões divergentes, perdidas e sem embasamento político. Apenas é reiterado o nivelamento dos discursos prontos, massificado pelo tempo.

É um cinema direto. De câmera na mão. Próxima das ações. A fim de criar uma maior intimidade. Que prende o espectador pelo ritmo montado. Uma afeição de primeiro assoprar para depois morder. É captar o contraditório. É criticar a alienação de um parcela popular, que alimenta situações do ridículo, invertendo a ordem do próprio surrealismo. Neste caso, a realidade é uma descreditada verdade.

Na sessão de acabou de acabar, talvez tenha sido a exibição mais politizada. De confronto agressivo. De imposição imagética. Até porque, ainda que os diretores tenham o poder de escolher as cenas no processo de montagem e ou manipular intervenções polarizadas de argumentos políticos, o que se vê é o mais puro reflexo de uma contemporaneidade. O que sai da câmera assusta e incomoda. Tanto que gerou desconforto e falatório na plateia. Ora pela identificação, ora pela tirada da rede da zona de conforto.

Cada um dos grevistas, que arquitetaram a paralisação, sente a latente e pulsante ingenuidade de que uma “andorinha pode fazer verão”. Que ao gritar “O Brasil é Nosso”, eles fazem a “História do nosso país”, vencendo a “luta” e “tirando o governo ladrão”. O filme é uma voz a eles. Democrática e que se perpetua na tela grande. É uma necessidade. Urgente. É, o “melhor do Brasil é o brasileiro”. A máxima popular é mais que pertinente quando conhecemos causos e improvisações, como o “chuveiro aperfeiçoado”.

“Bloqueio” é um mosaico de clichés enraizados por parte dos grevistas (“todos líderes”), que levantam sempre as mesmas placas de “Rede Globo lixo” e “Fora Temer!”, todos, meio gaiatos, em emoção desmedida, com a camisa verde e amarela, cantando o Hino da Bandeira e o Hino Nacional, e realizando cultos evangélicos. Um policial diz “a nossa preocupação é com a segurança de vocês”. É o poder versus a vulnerabilidade. A intimidação do medo versus a fragilidade do conhecimento. A imposição versus a covardia do enfrentamento, à mercê das ordens.

Isso faz lembrar de um famoso meme que pergunta: O que nos queremos? Quando queremos? Como queremos? Para que queremos? Eles sabem que querem respeito e dignidade contra a rotina cruel. Querem mudar o conceito. Mas de que forma? Luta-se na rua. De “verdade”. A luta precisa ser imediatista. Caso demore, a diversão está garantida com selfies, comida e música. A festa pré-vitória. Conseguiram o objetivo? Ainda não, mas estão descansando.

Se lá na literatura de Saramago, mantém-se a organização, do lado brasileiro, a luta é esbaforida, sem premeditação. Assim, as dificuldades das conversas são mais frequentes, impedindo o diálogo à menor indicação de divergência. A professora que apoia a luta precisa também aceitar as ideias alinhadas e repetidas de Jair Bolsonaro. Oito ou oitenta. Caso não “compre o pacote” todo, então é do “PSOL”. Eles são à favor do porte de armas e da ditadura militar (“Homem de bem não sofria na ditadura”). Ora eles gritam energicamente que a democracia não existe. Ora que estão em uma democracia. Qual o parâmetro? Em prol do momento oportuno?

Sim, é incômodo. E desnorteante. A obra assistida é auto-suficiente. A imagem já completa o objetivo proposto. Mas também é oportunista ao explorar o “material bruto” do filme. É o que quase sempre incomoda no universo de Eduardo Coutinho, que é a manipulação do outro para a fama do próprio documentarista. Alguns policiais, seguindo a determinação do juiz (a “pressão psicológica”), lidam “bem” com a crise (talvez, não se saiba, se pela presença protetora da câmera – neste caso, há uma direta e modificadora interferência – que vamos ser sinceros, não há naturalidade existencial quando estamos sendo filmados).

“Bloqueio” é acima de tudo sobre uma discrepância. A de falar mal dos militares e pedir uma intervenção militar. “Paralisação é conversa?”, um policial pergunta. Sim, é um direito do povo, explícito na Constituição Federal. “A greve é instrumento de pressão, ou mesmo coerção, dirigido pela coletividade dos trabalhadores sobre o patronado. É considerada em nossa legislação, como a suspensão coletiva, temporária e pacífica, total ou parcial, de prestação pessoal de serviços a empregador (art. 2º da lei nº 7.783/89)”, do site Jus Brasil.

Concluindo, o longa-metragem adentra e retrata de perto o acontecimento da greve dos caminhoneiros. E busca a naturalização. O fazer parte para que assim possa captar mais e mais furos jornalísticos, expondo ao ridículo trabalhadores, que ainda que limitados e de opiniões contraditórias, merecem respeito. O que percebemos são instrumentos-pontes para fazer rir dentro de um protegido cinema, mesmo que com a concordância total dos personagens retratados, que desfavorece a causa. “Bloqueio” é uma vitrine expositora que tenta criar pseudo representações de luta. Por outro lado, expô-los ajuda a conscientizar. De perceber os porquês de um possível cúmplice retorno do fascismo. Um ou outro soa cruel e desumano demais. E causa bloqueio.

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