Uma jornada para descobrir a força da própria existência

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2018


Há quem diga que no cinema todas as histórias já foram contadas. Todos os temas já foram abordados. E que é a forma condutora que separa a qualidade da deficiência. Cada filme ao optar por temas semelhantes pode desenvolver em seu público a frase “já vi isso”.

É um desafio e uma maestria reverter percepções tão atualmente embrenhadas. E se pensarmos que todo e qualquer diretor é um produto das próprias referências cinéfilas, olhares únicos e características inerentes a própria personalidade ímpar e particular, então nós talvez consigamos compreender o caminho proposto e seguido.

“Luna”, exibido na mostra competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2018, é um típico e desafiador desses exemplos. Em suas primeiras cenas, nós nos obrigamos inferir plurais despejos comparativos, que se iniciam com “Ferrugem”, de Aly Muritiba, e que vão a “Depois de Lúcia”, de Michel Franco.

Sim, há muito do universo desses e de outros, como “Sociedade dos Poetas Mortos”, de Peter Weir. Mas ainda assim a obra conserva uma atmosfera mais autoral, de naturalizar o cotidiano acompanhado pelas novas experiências de uma jovem que tenta sobreviver em um mundo hostil, adolescente, machista e limitador.

O longa-metragem, dirigido por Cris Azzi, é uma jornada. Uma viagem ao autoconhecimento. A descobrir possibilidades do ser e do agir. A definir propósitos. A encontrar a força para transpor barreiras existenciais. “Luna” é um filme mergulho pelas muitas camadas dos comportamentos sociais. Principalmente dos outros, responsáveis por padronizar vidas, morais, éticas, desejos, amores, impulsos, erros e sucessos. Nossa protagonista Luana salta no vazio desconhecido do dentro à fora, para assim poder absorver vivências que a construirão como pessoa.

O objetivo do diretor não foi criar um conto de fadas, uma fábula lúdica com regras pré-definidas e confortavelmente palatáveis, e sim, um estudo sobre o acaso, em que a precisão dá lugar a intenção. A liberdade narrativa é tamanha, que pode soar porosa, afastando o aprofundamento das questões e se tornando uma artificial crônica, pautada na suspensão do tempo, no limite tênue do risco consciente do atravessamento.

“Luna” é um mosaico de vazamentos e de fluidas digressões que se preocupam mais com o seguir o caminho que com consequências e extensões acionadas. Não há espaço, tampouco foco revolucionário, em desenvolver e ou firmar as experiências da exploração da sexualidade, o possível estupro, a intimidade exposta na internet, a figura machista do homem opressor, a ausência dos pais, a individualidade sobrevivente da mãe, a polarização política sobre o impeachment e ou golpe, o bullying dos colegas, a tentativa de suicídio, nada. Tudo é coadjuvante. A estrada é muito mais importante que suas paradas.

Conduzido pela “persistência da câmera em encontrar a força, em chegar à potência e na segurança dos enquadramentos” (dito pela equipe na coletiva debate pós filme). É verdade, a câmera, quase mosca, imperceptível, passeia sem pressa, contemplando um tempo cotidiano pela fantasia imagética dos vinte e quatro quadros por segundo. É a própria poesia da vida. Em seus silêncios, suas sutilezas e até mesmo nas próprias imaturidades da idade de suas personagens.

Luana, de alter ego protetor Luna, passeia pela própria existência. Como uma concretista epifania do nosso olhar. Observamos, mas não participamos. Reparamos, mas não adentramos a defendida casca. O espectador vê as limitações geográficas e financeiras da protagonista. A casa simples não embolsada em uma área não asfaltada, a mãe operária, a venda de brigadeiros para aumentar a renda. A bicicleta como meio de transporte Só que em hipótese alguma explicita vitimismo. Aproveita as oportunidades da mansão e da piscina com a amiga. O estímulo à liberdade sexual. Com direito a “passinhos” de Funk.

A narrativa é não linear e também não cria a explicação didática. Há o meio do fim, o início, o meio e o fim em construção, catártico e em protesto. Tenta-se harmonizar o tom para não errar o equilíbrio contextual. Se pensarmos no todo, aceitamos seu resultado. Porém se analisarmos peça à peça, então encontramos fragilidades transformadas em liberdades poéticas. O que assistimos no começa nos indica um nível de carga dramática. Mais terminal e no limite. O próximo capítulo é sua apresentação e desenvolvimento, normatizado, espontâneo e realista, como seu universo escolar, em que “valentões” fortes filmam com seus celulares outros vulneráveis e tímidos. Aos poucos, somos imersos nos conteúdos contemporâneos: a formação do corpo e do caráter, as formas de amar e de prazer, o empoderamento do movimento feminismo, a alegoria das máscaras.

“Luna” adentra na poesia etérea. Na automatização da juventude. Que possui tempo demais, paixão demais, medo demais, dúvidas demais, pensamentos demais, ansiedades demais. É demais, e essa hipérbole está impressa no filme, mas que se contrasta pela economicidade interpretativa (irretocável, cadenciada, ritmada e de tempo parado). Cada instante praticamente se torna uma referência fílmica. Inferimos “Carol”, de Todd Haynes; “Duas Irenes”, de Fabio Meira, a “Mulher do Pai”, de Cristiane Oliveira, e, principalmente, e “Tinta Bruta”, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon. Aqui é uma ida brusca ao lado mais primitivo e instintivo. Até mesmo do próximo filme que se permite perder na própria premissa e desconstruir a própria criação, fornecendo demais o mais e se esquecendo de navegar nos detalhes do menos; e confundindo com falsas pistas o derradeiro futuro. Submisso-covarde ou militante-desafiador?

Luana (a atriz estreante Eduarda Fernandes) e Emília (também atriz estreante Ana Clara Ligeiro) se conhecem no primeiro dia de aula do último ano da escola e uma amizade floresce rapidamente. A relação intensa, divertida e explosiva entre as duas é interrompida quando um vídeo de Luana é vazado nas redes sociais. Agora ela precisa escolher como pretende enfrentar a sociedade. “Muito cuidado como você vai filmar o corpo dessas meninas”, disse uma feminista ao diretor antes do processo de construção do filme. “Era um exercício diário de reflexão do material para entender as imagens e para perceber superfícies do filme. A escolha tomada era alcançar uma transformação: uma Luana diferente, puxando os novelos e certas liberdades a lidar. Qual a sinopse desse filme? Eu ainda não sei, finaliza Cris Azzi, na coletiva de imprensa.

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