Um Eldorado a marionetes

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2018


Estimular a continuação da trajetória de realizadores é um dos princípios essenciais de todo e qualquer festival de cinema, cuidando para que cada um possa construir um futuro. O Futuro Brasil, mostra integrante do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, mecanismo este que fomenta o sonho e a possibilidade de existir no profissional, impulsionou o filme “New Life S.A.”, do recifense, morando em Brasília,  André Carvalheira, exibido ano passado para produtores e curadores (e que foi premiado na categoria), a estar na competição oficial da quinquagésima primeira edição que acontece agora na capital do país.

“New Life S.A.” é uma experiência. Uma premissa conceitual. Uma crítica social. Um modelo que desconstrói a padronização da narrativa, quebrando barreiras e inserindo uma estranha atmosfera proposital para significar uma suspensão do tempo. O público sente similaridades comparativas com outros filmes. Referências são reverberadas. Que vão de “O Som ao Redor”, de Kléber Mendonça Filho, a estrutura epifania de Marcelo Masagão (e seu “1,99 – Um Supermercado Que Vende Palavras”), passando por “Os Inquilinos – Os Incomodados que Se Mudem”, de Sérgio Bianchi; por “Brasil S.A.”, de Marcelo Pedroso; e por “Branco Sai, Preto Fica”, de Adirley Queiroz.

Nós somos conduzidos em uma articulada e arquitetada crônica, que se alimenta da metalinguagem para criar uma sensação de bastidores projetados e integrados, como um reality show, que descortina os limites entre realidade e ficção dos núcleos corais que se encontram e se completam no círculo das interseções humanas – idiossincráticas e moralmente comportamentais. É sobre Augusto (o ator Renan Rovida), um jovem, ingênuo e proativo arquiteto bem-sucedido à procura de um sentido para sua vida, acreditando que sua profissão irá transformar o mundo e as relações entre os indivíduos e a sociedade. “Quem tem o Legislativo e o Judiciário, tem tudo”.

“New Life S.A.” é um sarcástico retrato sobre nossa sociedade (da “distância de uma família de verdade”, artificial e encenada). Um discurso limitado no que se realmente pode fazer. E onde ir. É um jogo de poder. De políticos versus o povo. De um lado o Secretário de Obras do Governo e seu marqueteiro que o ajuda na campanha eleitoral. Do outro, os vulneráveis de uma favela, morando à margem em barracos e ruas não asfaltadas. Tudo é uma ironia teatralizada que se interpela na realista realidade em tom lúdico, como o GPS fora da área de cobertura por estar na “favela assentamento”.

O longa-metragem alfineta a descontrolada expansão imobiliária, de “perfeitos” complexos que vendem uma “nova vida” e que desmascara hipocrisias da sempre necessidade de se aparentar como se estivesse em uma “comercial de margarina”. Nosso protagonista acredita, inocentemente, que boas ações incutem dignidades. Sua humanidade não consegue a resignação. Acordado e inquieto convive sua rotina entre um filho recém-nascido, um sogro autoritário e mandante e uma apática esposa passiva-submissa, tudo envolto nas defesas do universo hostil de trabalhadores marionetes à moda de “A Fábrica de Nada”, de Pedro Pinho. Que assim como uma experiência papéis sociais são trocados a fim de que o outro sinta na pele as dificuldades e sobrevivências.

“Quem criticou, não entendeu, e quem não entendeu é porque é burro”, diz-se e nos faz lembrar do seriado “Jack Ryan” da Amazon (“Geografia é destino: o mundo é um forno, e nós (os pobres e à margem) somos o barro”, no sexto episódio da primeira temporada), ficando mais e mais “O Som ao Redor”, já citado anteriormente. Outra inferência, que ao longo do filme ganha status explícito, é o encontro com “Black Mirror”, outro seriado, só que da Netflix. O empreendimento New Life é um novo sonho. Uma salvação. A meca do viver bem. O “bairro novo com DNA de Brasília”. Um modelo. “O que paga as contas é fazer papel de ridículo”, filosofa uma percepção antropológica e suas armas que causam uma sensação orgástica do poder.

“New Life S.A.” é sobre sentir o conceito de uma plástica família vitrine, com um que de outro seriado chamado “Westworld”, que potencializa, alimenta e permite a primitiva selvageria de cada um de nós, cruéis por natureza, com “almas sebosas” e marginais. Seres que aceitam “irregularidades em obras”, que almejam corrupções para agregar bolsos com altas propinas. Mas até mesmo o mais humanizado, nosso personagem principal, aceita conviver com sua aristocracia de classe alta, com casa de rico e babá que cuida do filho para descansar os pais do cansaço do próprio ócio. Corroborar seu machismo em ter a mulher quando quer. Quanto menos trabalho melhor. Maior a possibilidade de liberdade individualista para o oportunismo político de usar a miséria de uma menina para angariar votos. Contra o “aconchego”, que é “simplório” e à favor do “prazer”.

É também uma ficção científica. Que ensina aos homens-máquinas, robotizados e lobotomizados, as cinco “ações do sucesso” (“visão, iniciativa, objetividade, persistência e poder de recuperação”), criticando o simplório e palatável discurso político, com suas frases de efeito, suas enérgicas cargas de sair de uma inércia para adentrar em outra. De vendedores em vencedores. Só que mais definida e conduzida à moda ditatorial de “The Handmaid’s Tale”. É um filme experiência. Autoral e incisivamente questionadora.

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