Chapa Branca Anatomy

Por Vitor Velloso


Quando uma pessoa realiza um projeto, ela exibe para diversos amigos, a fim de receber a aprovação e apoio deles, mas, se a obra possui problemas, é importante que haja um amigo mais sincero que tenha a honestidade de dizer o que de fato pensa. Neste caso, eu serei esse amigo. Sérgio Rezende retorna a direção de um longa, após o fracasso monumental (me refiro à crítica), de “Em nome da Lei”. A chapa branca reinava sobre o filme, e aqui em “O Paciente – O caso Tancredo Neves”, não é diferente.

Na trama o Brasil acaba de viver os momentos da Diretas Já e caminha para receber um presidente de forma indireta, Tancredo vence e à dois dias da posse, se sente mal e deve ser acompanhado por uma junta de médicos. Obviamente, é baseado na história real do político e irá acompanhar seu protagonista até o momento de sua morte. Já nos primeiros planos da ficção, é possível enxergar que a estética é televisiva, pelas cores, enquadramentos e a opção da câmera trêmula, que lembra as mini séries policiais (e de médicos), em alta no momento. Essa proposta de se filmar, é a espinha dorsal à maneira como se constrói a dramaticidade no longa.

Infelizmente, nada funciona. Os personagens parecem construídos nos moldes das novelas, assim como suas interpretações. A frieza nas emoções é corrosiva e a carga de prepotência, aliada da postura aristocrática diante da realidade promove um show de uma família mesquinha e iludida, que acredita estar salvaguardando a maior revolução da história do país. Aécio ao aparecer em cena, provoca risada, uma figura de nariz em pé e postura de adolescente, aparentemente um retrato fiel. Já Othon Bastos, o lendário ator Brechtiniano, nos dá uma interpretação caricata e sem alma, o que combina com o projeto, mas não com o que se espera do ator. A consequência para essa sucessão de equívocos é um filme desestruturado, com uma progressão desordenada entre seus personagens.

Como foi citado, uma referência não apenas na linguagem mas na estrutura narrativa, aqui, apresentada, são as séries televisivas de hospitais, porém, é necessário salientar que as boas ideias que deveriam ter sido extraídas daqui, como no caso de “The Knick”, é priorizar, acima de tudo, seus personagens, pois, eles são o fio condutor para o espectador, sendo a história um lugar onde eles vivem, não à toa, aficionados por produtos televisivos, se preocupam mais com as atitudes dos personagens do que com o andar da história, já que os próprios, fazem a trama girar e possuir reviravoltas. E a novela criada por Sérgio Rezende, não consegue cativar o espectador por nenhum segundo. Não cria aversão a nenhum dos personagens, nem mesmo empatia. Se podemos configurar uma espécie de antagonista, ele se encontra na figura do Paulo Betti, mas que ainda assim, possui motivações concretas o suficiente para que possamos levar em consideração muita de suas atitudes.

Essa estratégia da câmera que dá zoom, é recorrente em produtos dramáticos, onde o mistério rege a cadência da progressão. Porém, a história de Tancredo é conhecida por grande maioria do público alvo da obra, gerando uma pequena digressão entre o objetivo e a realidade que se tem. Além disso, a encenação é burocrática, pouquíssimo satisfatória e expõe demais as intenções do cineasta. E quando o assunto é exposição, é notável a deficiência nos diálogos, que beiram o cômico, se repetindo incansavelmente a fim que se possa fixar uma determinada informação ao público que irá assistir na TV. Frases de efeito são recursos constantes do roteiro, direto do papel à tela, integralmente.

Outro ponto a ser debatido é a fotografia, que passa o filme inteiro buscando seu ponto de referência, falhando de forma crassa. Munido de um flashback digno hilariante (isso não foi um elogio), as tentativas de criar um background para a história torna-se um exercício de martírio auto-consciente. E por fim, a encenação fica brega e absurda, a cada plano que vemos a imaginação do Tancredo sobressaltar na tela, é um choro diferente, de vergonha. E para fechar com chave de ouro, Tygel, um constante colaborador do Sérgio, escolhe uma música que destoa grosseiramente do filme. Ainda que essa fosse a intenção, não funciona. Infelizmente cria uma misancene de luto que provoca mais caretas pela confusão estética, que pelo que acontece em cena.

“O Paciente – O caso de Tancredo Neves” não é uma obra que faz um desserviço ao Brasil, mas sua tentativa de imparcialidade enfraquece a proposta e as escolhas feitas pelo diretor não funcionam. E no fim, alguém tem que ser o amigo sincero.

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