Mulheres unidas, jamais serão vencidas

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2018


Em certos momentos de nossas vidas, alguns filmes causam tamanha comoção, que o melhor a se fazer é escrever sem esconder a catarse. Sim, até porque nós precisamos aceitar a emoção despertada. Talvez esta não seja uma crítica, ainda que com as informações técnicas, e sim uma necessidade de expurgação.

Este preâmbulo aplica-se em gênero, número, grau e excelência no novo documentário de Susanna Lira, “Torre das Donzelas”. É uma experiência impactante e precisa, cuja narrativa sabe exatamente o lugar que quer e precisa chegar. É essencialmente política pela carga de sua História (e pela Ditadura que durou vinte e um anos, desde 1964), mas se apresenta completamente apartidária, convergindo ao bruto e primitivo elemento humano, representadas por vidas, de brasileiras guerreiras e lutadoras, que se entregaram integralmente aos seus ideais.

“Torre das Donzelas” ainda potencializa a característica principal e inerente, que é a de contar histórias, de informar conteúdo e de mascarar a forma, criando um universo próprio de afinidade íntima com o público, ao abordar ex-presas políticas, que foram torturadas e impedidas de vislumbrar um futuro.

O longa-metragem, que abriu a mostra competitiva oficial do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2018, é uma reconstituição cênica do “psicodrama” (artifício híbrido que intercala e fornece um a suavização ao tema), uma possibilidade de se libertar do passado, o relembrando em detalhes. Vamos por partes então.

O filme remonta, a partir de fragmentos de lembranças de cada uma delas, uma instalação semelhante ao espaço do cárcere onde estiveram presas. Nesse cenário, concepção de Glauce Queiroz,  elas se reencontram 45 anos depois para romper com o silêncio e o medo de relatar os horrores de viver sob uma ditadura.

A partir de desenhos feitos por cada uma delas e nenhum parecido com o outro, o filme cria um campo de subjetividade ao erguer um espaço cinematográfico em que silêncios, pausas e reticências são tão importantes quanto as palavras.

Susanna reconstruiu a prisão, chamada de “Torre das Donzelas”, um espaço destinada às presas políticas (“revolucionárias e terroristas”) no presídio Tiradentes (aludindo explicitamente a Graciliano Ramos em “As Memórias do Cárcere”). Em “celas fétidas”, limpadas pelas próprias. E relembrou pontos que emocionam. Há desejos que nem a prisão e nem a tortura inibem: liberdade e justiça. Há razões que nos mantém íntegros mesmo em situações extremas de dor e humilhação: a amizade e a solidariedade.

“Torre das Donzelas” transcende a estrutura clássica de um documentário, quando indica uma sugestão a Eduardo Coutinho (e seu “Cabra Marcada Para Morrer” – pela mise-en-scène do quadro negro e o giz – outra implícita crítica às professoras), para adentrar na arquitetura abraçada de “Dogville”, de Lars von Trier, e assim mergulhar sem manipulações, clichês e tampouco propaganda nas memórias destas mulheres, que lá dentro encontraram a amizade, coletividade, solidariedade, ajuda psicológica, silêncios cúmplices, ensinamentos literários e até mesmo aprender a cozinhar. Não eram mais presas, e sim uma família.

A câmera em hipótese alguma busca a vaidade, o melodrama e ou o oportunismo vitimizado. Não. Pelo contrário, nós somos imersos na espirituosa naturalidade e verdade espontânea dos momentos captados. Traduz-se o que há de mais sincero, desmascarado e desnudado. Intimidade com confiança. Sem amarras e “culpas”. “Cada um sabe sua pressão no limite do medo: quebrar o silêncio é uma forma de denunciar”, diz. E lê o poema “Liberdade”, de Carlos Marighella.

Não há coadjuvantes. Cada uma delas imprimiu sua importância, mas inquestionavelmente é a ex-presidenta Dilma Rousseff, que sofreu impugnação de seu mandato, que puxa mais atenção. Independente do partido, de ser esquerda ou direita, de ser de centro, e até mesmo apolítico, não importa, Dilma é uma figura política que sofreu abuso de autoridade, ainda que precisasse “pegar em armas nas ações” contra a “não instituição da liberdade de imprensa, de crítica e de organização”. Vivendo na clandestinidade, sem mais movimentos estudantis (“Só os chatos ficaram”). “Eu me orgulho muito de ter mentido”, diz em relação aos interrogatórios destituídos de dignidades (“esquecidos dos direitos da ONU”) de “milicos que queriam informações imediatas”. “Feliz do povo que não tem heróis”, Bertold Brecht.

“Torre das Donzelas” é sobre vidas que tiveram seus direitos abdicados. A diretora concretiza a memória. São como judias revisitando o “campo de concentração”. Elas resistiram a tortura, talvez “pelo ódio”. “Era uma caixa de maldades”, adjetiva-se. “Era lucro se eu morresse”, diz com ímpeto. Antes de 1964, tinham a extrema politização, descobriram o mundo e a “esquerda aguerrida”. Uma geração que questionava a razão de “você” existir. Ainda que impedidas porque “mulheres menstruam”. Em uma das conversas, a atriz Ítala Nandi disse que até hoje mulheres não podem pilotar aviões, também por causa da menstruação.

Elas construíram no presídio espaços de integração. Transformaram em uma “Torre 3 Estrelas”. Em “mocó”. Em lar. Em momento nenhum, perdem o humor. O riso solto. O afeto e carinho. Eram “esforçadas, mas sem a menor arte para a cozinha”. Continuara revolucionárias. Não mudaram. E se “vingavam” com “presentes artesanato escrito Mao” daqueles que viam subversão em tudo. Até em Charles Darwin. Era o coletivo contribuindo para nunca se sentirem derrotadas. Que preferiam livros a vestidos. Criaram o controle total do tempo e do espaço. Se libertaram lá dentro. Era uma “tarefa hercúlea”, mas “ganhamos deles” com suas “relações eletivas”. Tudo embalado com marchas e com a música “Flor da Pele”, cantada por Gal Costa.

“Torre das Donzelas” é um filme único, ímpar. Que desestrutura até mesmo o mais “macho dos machos”. É sensível, bem-humorado. E que fez com que eu seguisse o conselho da diretora Beatriz Seigner (de “Los Silencios”, cujo filme seria exibido logo após, e eu já tinha assistido no Festival de Cannes – e com crítica no site). Pensei e precisei ficar com o filme mais tempo. Corri ao hotel e me libertei da melhor forma que existe: escrevi e perpetuei o filme em mim. Para sempre.

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