Ruídos Utópicos

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2018, “Los Silencios”, que agora chega a Brasília, é uma fábula sobre não esquecer. Sobre projetar a lembrança com fantasmas, libertando o passado e a possibilidade do presente alucinado. Sobre a luta de não deixar morrer a própria essência. Sobre sobreviver em um mundo hostil que não os quer. É dirigido por Beatriz Seigner, de “Sonho Bollywood”, que disse que o filme é uma sequências de fragmentos de cenas que vieram em flashes após sonhar com a “crazy story” de um amigo sobre a infância.

A premissa é bastante semelhante à do filme “Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas”, do realizador Apichatpong Weerasethakul, que personifica entes familiares para assim construir a metáfora da invisibilidade de um mundo que nunca enxerga a margem e suas entrelinhas existenciais.

Se na obra do tailandês a percepção é explícita, aqui se apresenta como uma simbólica inferência, à moda de “Sexto Sentido”, de M. Night Shyamalan, representativa pelo viés emocional, que transcendendo o abstrato até encontrar a cura na concretude da imaginação. De tanto sonhar com a chance, pode-se concretizá-la. Este é muito mais uma percepção que um spoiler. Sim, o leitor-espectador-cinéfilo pode ficar tranquilo. Nada foi dito mais do que deveria.

Amparo (Marleyda Soto – uma atriz de precisas reações – tudo que precisa ser dito e entendido sai de seus olhos) é mãe de dois filhos pequenos (Nuria com doze anos e Fabio com nove) e está fugindo dos conflitos armados da Colômbia. Na tríplice fronteira do país com o Peru e o Brasil, eles chegam e se abrigam em uma pequena ilha com casas de palafita no Rio Amazonas, chamada de “A Ilha da Fantasia”. Um dia, o pai desaparecido(o ator Enrique Diaz), que supostamente estava morto, reaparece. Esta família é assombrada por um estranho segredo.

“Los Silencios” cria uma experiência ambiente que lembra a urgência do cinema direto do filipino Brillante Mendoza (com seus barcos clandestinos em noite iluminada). De compartilhamento das dificuldades e dos traumas não resolvidos, estes que geram uma sensação de esperança, quase cruelmente otimista. Com fotografia submundo, quase um filme de terror, as cenas em longos planos sequência alternam-se entre a luz e a escuridão. Entre os limites fronteiriços. Entre desejos e realizações. Entre vulneráveis líderes comunitários.

É também um filme político. Uma estudo de caso sobre a imigração, coletado por similares histórias compartilhadas de mais de oitenta famílias colombianas e sobre a própria história da diretora, lembranças de seu pai. Sobre as dificuldades daqueles que buscam refúgios em outros lugares não incompatíveis, como o preço do uniforme da escolha dos filhos. É também um filme metáfora. Sobre as fronteiras e seus limites, com um explícito que de Hitchcock e o céu infestado de pássaros. Sobre quereres (a famosa expressão “é o que tem para hoje”), como ir ao Brasil.

“Los Silencios” é também metalinguagem, com documentos que comprovam os conflitos em vídeos mais amadores com diálogos mais diretos. É um filme de muitos. Que não quer e não pode desperdiçar momentos. Cada centelha ressignifica uma já massificada observação. Assim, algumas cenas e suas pululantes urgências em interpretações mais dramatizadas (dos não atores locais) apenas perturbam o equilíbrio do todo, sem atrapalhar no resultado final. Deixa-se bem caro que a encenação é válida, necessária e condizente, aceitando o palatável e a simplificação facilitadora para manter o status conceitual.

É um longa-metragem que se permite navegar na superfície em seus gatilhos comuns narrativos, que estabilizam uma zona de conforto suavizada, como pessoas espreitando em suas janelas, um tiro e seu susto. Nós adentramos em um universo solto de “continue filmando”. Não podemos negar que é também um filme militante, de fornecer voz àqueles que nunca falam. Mas o tom é livre demais. Diálogos parecem lidos, potencializando dramas, vitimizações, deficiências e choques, como a aproximação na perna mecânica e ou a oferta de um cigarro a uma criança.

“Los Silencios” é uma típica e ingênua utopia, que acredita que a verdade do discursa transformará inferno em paraíso. É um protesto verborrágico. Um desabafo. Uma enérgica e passional revolta. Como foi dito, é necessário e pertinente. Muito. Em um mundo contemporâneo em que o outro sempre é referenciado como inimigo, esta obra despenca-se para afastar distâncias, permanecer com os moradores e confrontar as falhas sociais. É uma necessidade de sobreviver a qualquer jeito. Uma terra sem lei. De carregar sempre os problemas que se comete.

É cinema puro e direto. Orgânico. Humanizado. Físico e fisiológico. Que crê que a imagem cura. Que perdoar não é fácil dentro de uma “guerra injusta”. É um filme dedicado “a todos que lutaram antes de nós e aos que lutarão depois. Com “emoção, sensação, pobreza, supernatural, realidade e natureza”. Concluindo, um filme que se preocupa demais com o tema propaganda, preferindo a autoralidade livre do conceito que a estilizada forma, preenchendo demais os inferentes silêncios.

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