Muitos excessos, pouca diversão

Por Vitor Velloso


Shane Black é um diretor conhecido pelo humor levemente negro e “buddy movies”. Quando anunciaram que ele iria dirigir o novo “Predador”, as pessoas pensaram que seria uma espécie de auto paródia da franquia ou um filme que reconhecesse os problemas objetivos de uma série como essa. Após assistir ao novo longa, todos apenas se perguntam. Porquê?

Na “nova” história, Quinn McKenna (Boyd Holbrook), está no meio de uma operação militar, quando é atacado por uma criatura extraterrestre, o Predador. Dois de seus homens são mortos e ele é levado pelo governo a um interrogatório. Ao ser transferido a fim de ser lobotomizado, se encontra com o “esquadrão 2”, um bando de lunático que à priori não acreditam na sua história. Para o espectador fica claro que há algo perseguindo o personagem título. Então, nessa narrativa existe um núcleo no protagonista, McKenna e uma progressão na história que acontece através do embate do Predador e desta criatura que o persegue.

A projeção se inicia como um filme do Star Wars, com uma música aventuresca e naves espaciais. Já de cara os efeitos especiais incomodam, existe um blur na frente de todas as texturas que irrita um bocado. A primeira cena do monstro, é violentíssima, extremamente divertida, consegue dar a nostalgia dos primeiros longas e intensificar o processo de violência desenfreada que o personagem oferece. Mas se existe uma coisa que esta película gosta de fazer, é ser inconsistente. Tudo é meio sem tom, possui muitas variações, até mesmo a violência, que em determinado momento é gritante em outro parece ter sido lavada pela censura do PG-13.

O filme recebeu classificação de 18 anos aqui no Brasil. Totalmente sem justificativa, não há nudez e a violência não é grave o suficiente para que seja argumentada a idade, mas… paciência. Viva o moralismo. Aliás, o moralismo reina na tela de “Predador”, um louvor tremendo a bandeira americana e tudo que ela representa, uma leve misoginia que corre solta em diversas piadinhas (aqui devo fazer um breve comentário, acredito ser uma ironia do diretor ao pensamento militar presente nos soldados norte-americanos) e todos os problemas de conservadorismo clássico.

Olivia Munn interpreta Casey Bracket, uma cientista chamada para ajudar na pesquisa do óvni mais carniceiro do pedaço. Sendo a única representante feminina de um grupo de homens completamente loucos, sedentos por uma violência gratuita. Sua personagem diz pouco à construção de gênero, mas possui uma grande relevância na narrativa, mas é unidimensional. Já o grupo de lunáticos, é a melhor parte, diversas piadas são divertidas e funcionam, com algumas exceções, e o elenco foi escalado a dedo: Trevante Rhodes, Keegan-Michael Key, Thomas Jane, Alfie Allen, Augusto Aguilera. Como é fácil de se prever, Key é um dos que roubam a cena, mas curiosamente, Rhodes é o melhor de todos os personagens do grupo, possui o maior tratamento dramático e introduz ao público os problemas que cada um enfrentaram para estarem como estão hoje. E isso é importante, a fim que haja empatia, mas também, que possamos compreender a origem dos seus distúrbios.

Algumas escolhas que o diretor faz em sua linguagem, exemplo: o excesso de plano e contraplano em diálogos cômicos, buscando gerar esse tempo fragmentado da piada, são funcionais. Porém, a estrutura que ele impõe à narrativa, buscando um desenho próximo aos filmes “Slasher” dos anos 80, satura um pouco a imagem nostálgica que já existe e introduz no longa um elemento, que quebra completamente o dinamismo e a intensidade das cenas, uma criança, filho do protagonista, interpretado pelo talentoso Jacob Tremblay. Este elemento quebra completamente as construções que poderia ter sido feitas e puxa um clichê irritante, de ter algo a proteger, um motivo à mais. É frustrante ter que passar por isso novamente na sala de cinema.

Quanto a ação, também é frágil, sendo impulsionada por pequenos momentos de violência desenfreada, que empolgam mais e por longas pausas que pouco acrescentam à narrativa. A introdução desta nova criatura, um predador ainda maior (não é spoiler, tá no pôster), foi uma decisão coerente, já que buscaram essa saturação da série como ponto de partida, porém, as expectativas não são correspondidas. Imagina-se que, um bicho maior e mais letal, significa mortes mais legais e mais (sim, “mais” é a palavra que define tudo) violentas ainda, mas… não. Ele possui seus momentos aqui e ali, mas num todo decepciona bastante. Assim como o filme.

E no fim, tudo que se tem é um projeto com um diretor que aparentemente não sabe o que está fazendo ali. Erra o tom diversas vezes, possui altos e baixos e não consegue empolgar. Além, de uma trilha sonora, terrível, uma das piores do ano, de longe. E quando chegou a cena final, todos esperavam uma coisa que explodiria nossas cabeças, mas… foi uma escolha brega, preguiçosa e patética da parte deles. Quem assistir, saberá.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados