O seco cinema francês

Por Vitor Velloso

Durante o Festival Varilux de Cinema Francês 2018


Jérémie Renier, ator, 37 anos, fez sucesso ao atuar em filmes dos irmãos Dardenne, decidiu com seu irmão Yannick, também ator, realizar um longa, como diretores, desta incrível ideia saiu “Carnívoras”.

Na trama duas irmãs Mona (Leïla Bekhti) e Sam (Zita Hanrot), são complementos quase antagônicos do mesmo sangue. Ambas atrizes, porém, Sam decolou na carreira se comparada a sua irmã. Mona mantém seu estilo introvertido, sempre se escondendo em seus óculos, possui uma inveja não tão saudável do que Sam se tornou. Um dia, após um fracasso numa audição, vai morar com a irmã caçula.

Essa narrativa trágica é intensificada com avanço do drama que as duas vivem. Todas as máscaras possíveis estão presentes na tela, nenhuma delas consegue abrir a relação de forma tão ampla, elas parecem estranhas uma à outra, apesar da forte ligação que mantém. Esse sentimento de afastamento, mesmo que com intimidade, é construído através da câmera incisiva que paira sobre as diversas cenas de diálogo que elas possuem. Quando Sam vai atuar em um filme, ela tem um surto de estresse e some. Sua irmã a procura com afinco, sem resultado. O longa se desenha para esta busca, não apenas de uma familiar, mas de um complemento da própria personalidade e a falta que ela faz.

Sam mesmo com sua vida bem estruturada, esconde uma necessidade de liberdade incondicional intrínseca à própria personalidade, o que motiva suas atitudes inconsequentes. Sua irmã nesta busca descobre mais sobre si mesma, que respostas para as perguntas que vem se fazendo. Curiosamente, existem muitas semelhanças entre alguns problemas levantados aqui e em “Amante Duplo” do François Ozon, que Jérémie Renier. O problema é que o filme parece possuir uma digressão muito grande na sua própria estrutura, as coisas são confusas, o tempo corre de uma maneira difusa e as personagens, que são bem construídas e interpretadas, passam a ser uma âncora para o projeto. Já que os dois não conseguem dar conta da complexidade da trama, deixam que as interpretações falem mais alto que eles.

Por isso, falar de autoralidade aqui é difícil, ainda que hajam planos lindíssimos e muito bem encenados, há uma falta de organicidade na obra, tudo soa meio jogado, por mais que as intenções sejam boas e diversas execuções também. Georges Lechaptois que assina a fotografia, é eficiente em não sobrepor o trabalho dos diretores, mas consegue imprimir uma dramaticidade na cena, que é digna de nota. O casamento estético entre eles funciona bem, é agradável, plasticamente, assistir “Carnívoras”, mesmo existindo uma iminência de tragédia nítida na tela. E essa bomba relógio dita o ritmo da narrativa até o final. Digno de história bíblica, a construção que é feita com a progressão da história, mantém o espectador interessado no desfecho que a relação das protagonistas irá ter. Ainda que não seja um filme que necessite de reviravoltas no roteiro para segurar o público.

Infelizmente, não há o que ser dito além disso, pois, é uma obra complexa, mas que parece se amarrar a pequenos estilos que a engessam. Principalmente, como já dito anteriormente, em sua estrutura. Além do tédio que pode gerar em diversas pessoas, a sensação que estamos caminhando numa esteira incomoda e dispersa a empatia pela busca da personagem, o que faz “Carnívoras” perder muita força, claro, ele depende diretamente dessa entrega do público. Felizmente, não cai na armadilha da “art house” e se mantém fiel a uma estética e conceito até o final, não deixou-se seduzir pela mesquinharia, e isso não retira seu potencial industrial. É um filme que o mercado francês compra, fácil.

Mas com todos esses problemas já citados, ainda há mais um, previsibilidade. A trama toda corre de uma maneira pouco convencional, mas que soa familiar o tempo inteiro, nada é original. E quando chega o “terceiro ato”, se é que o podemos chamar assim, ele cai numa enrolação fajuta, que cansa a beleza da audiência. Ao seu final parecia que ia respirar, mas volta pro espectro francês de sempre, uma esterilidade imagética e uma frieza em suas dramaticidades, que geram alguns bocejos, se não risos.

Não é uma boa estréia na direção, mas também não é uma tragédia absoluta, por mais que se esforce para ser.

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