Até Platão Fumaria!

Por Fabricio Duque


No dicionário, a definição é banquete é uma refeição festiva de culinária refinada. É solene com o propósito de celebração. Pelo filósofo Platão, essa desambiguação representa discursos sobre a natureza humana e as qualidades do amor em uma festa mundana que se bebe mais do que se come.

A diretora e que também assina o roteiro, Daniela Thomas (de “Vazante”) sabe muito bem disso e do tema que quer abordar, imprimindo assim, em seu novo filme homônimo “O Banquete”, uma experiência psicológica de embates competitivos, sagazes, explícitos, performáticos, sarcásticos, cruéis, sádicos, perversos, afrodisíacos, acachapantes, adultos, maduros, defensivos, desbocados, sexuais, primitivos, instintivos, deselegantes, egocêntricos, espirituosos, chulos, agressivos, desafiadores e diretos sobre o poder do conhecimento acadêmico. É um exercício estilístico. Elitizado. Aristocrático. Com humor fanfarrão e testosterona.

Sua narrativa, pela estrutura teatralizada, imerge, descaradamente, o espectador no próximo e íntimo mundo das verdades nuas e cruas de suas personagens artistas e políticos, indivíduos sociais hipocritamente protegidos por fora e com as vulnerabilidades totalmente expostas por dentro. É um filme acima de tudo sobre o amor. Não o romântico, e sim o urgente que destroça a alma humana e desestrutura as emoções dos mais céticos e casuais. “Sou feio, mas não mordo”, faz graça.

“O Banquete” não sai do cenário que acontece inteiramente na mesa de jantar, no interior da casa “assinada com pedigree”. Nós somos apresentados como plateia, contemplando, observando e analisando os inerentes comportamentos de cada um deles. É uma “briga de cachorro grande”. Que os fortes e com “sangue de barata” sobrevivem às afiadas“facadas” que atingem de forma certeira e dedo-duro os segredos dos “amigos”, interpretados por Drica Moraes, Caco Ciocler, Mariana Lima, Gustavo Machado, Fabiana Guglielmetti, Rodrigo Bolzan, Bruna Linzmeyer, Chay Suede e Georgette Fadel.

O longa-metragem, que seria apresentado pela primeira vez no Festival de Cinema de Gramado deste ano, e que integrava a competição oficial, foi retirado à pedido da própria diretora. A suspensão foi motivada por causa da morte de Otavio Frias Filho, diretor de redação do jornal Folha de São Paulo, um dia antes da exibição. É inspirado em eventos reais e a publicação da carta aberta ao então presidente da república Fernando Collor de Mello (“um ditador travestido de democrata”). “O momento é inoportuno para o encontro de ficção e realidade e as possíveis interpretações equivocadas que a ficção pode suscitar. Por isso retiro o filme do festival”, disse Daniela.

“O Banquete” é um filme de atores. Que entregam suas improvisações para criar a atmosfera perfeita da mise-en-scène, que se inicia com uma planta carnívora, explicitando o caminho do que iremos percorrer. De canibalismo social. De vampirizar a moral. De arrebatar a ingenuidade dos outros e trocar por vícios e tristezas. De humanizar as fragilidades da existência. De se retro-alimentar de migalhas em uma farta refeição. De se embebedar à moda de Baco com o caro vinho Brunello que não acabam. Como Cristo salvador na última ceia.

Fim da década de 80, Brasil. Apesar de ter retornado à democracia, o país ainda vive uma época de extrema instabilidade política e incerteza geral. Em meio a este clima de desconfiança, uma jornalista descobre segredos podres sobre o presidente do país, que ameaçarão ainda mais o frágil equilíbrio da nação. “Casa cheia (no teatro) é melhor que sexo”, “Ódio dá úlcera, cala-te boca”, “Ator não é gente: não precisa lavar nem roupa, nem tomar banho”.

É um filme que busca o amadorismo da forma. O tom caseiro das ações e reações. Soando até mesmo frágil e perdido, para assim desenvolver toda a complexidade temática em mínimos detalhes. Principalmente por começar distante e separatista. Sem química, tampouco conexão. Com um tom acima fora de tom. Há um que do dramaturgo e diretor Domingos Oliveira e seu “Os Magnificos” e um que de “Perfeitos Desconhecidos”, do espanhol Álex de la Iglesia. E ou “A Festa”, de Sally Potter. E ou “O Discreto Charme da Burguesia”, de Luis Buñuel. E ou um universo Bette Davis de ser. Contudo, apesar de tantas inferências, “O Banquete” é único, particular e corrobora a liberdade criativa de sua diretora.

Quando se diz que é um filme desnudado, é porque quer a desconstrução da moral. Da desmistificação do certo e do errado, em que o maniqueísmo não existe, e sim uma massificação política-religiosa-social. “Aqui só tem bandidos se mocinhos”, diz-se. O flerte, as experiências homoeróticas, fósforo de motel, o técnico garçom serviçal Ted, a falsa carência, os jogos mentais, tudo ora hesitado, ora treinado. “Já fiz coisas piores, você também”, confronta bebendo o “sangue de Cristo”. É tudo sobre a “obscenidade do amor”, sobre “queimar a rosca”. “Educado é o pau que levanta para você sentar”, também inconveniente e “escroto”. Que quer o choque. Que critica a crítica cada vez mais “gastronômica” (“gostei ou não gostei”). Que tira a máscara alegórica. Com curiosidade mórbida. Até do “Tiozinho do 7 Eleven”.

E quando menos se espera, “O Banquete” joga as cartas na manga, revelando segredos, bastidores, dramas adjetivados, perspicácias propícias, pela câmera trêmula, na mão, de incluir o público, como cúmplice ouvinte, na podridão de se viajar a mais escura parte da psique humana. São oportunistas (com liberdade de se comportarem como loucos) de sangue e de atenção em jantar “cilada” “mais power do país” que brincam com as palavras. Que se articulam nesta “proposta divertida” à moda de uma batalha bárbara (“Diabo para proteger”), embalado pela concretista e rústica trilha sonora que potencializa ruídos como músicas. “A mesa está impecável, os convidados é que deixam a desejar”, com ácida fofura. Quem sobreviverá ao “cheiro shakespeariano” entre homens, seus sabores, seus duelos e seus dentes afiados? “Etiqueta adequada?”, escracha venenos, expondo monstruosidades, manipulações, ofensas, picardias. É priápico. Uma compulsão da penetração. Uma experiência ofertada para se empanturrar com maestrias interpretativas de uma direção com controle absoluto. “Até Platão fumaria!”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados