Formalismo como método intelectual

Por Vitor Velloso

Durante o CineBH 2018


Fui para a sessão de “Classical Period” sem saber nada sobre o filme. Nem se era ficção ou documentário. E assim que a projeção se iniciou, fui jogado a um longa onde a encenação é objeto de ideologia e a pretensão intelectual é a espinha dorsal da narrativa. Não por acaso, os personagens aparecem em um grupo de estudos, analisando Divina Comédia, o que na verdade é a sinopse do filme, narrativamente não há o que contar, além disso. Ainda assim, o conflito quase moral entre misancene x encenação x fotografia, imprime na tela um dos resultados mais interessantes do ano.

O ceticismo intelectual que impregna a obra, gera um estilo próximo ao Straub, com um leve flerte Bressoniano. O que impõe aos atores um estilo desengonçado e travado de atuação. Nenhum dos atores aqui funcionam dramaticamente, seus êxitos são resultado de um estranhamento cenográfico niilista que o diretor, Ted Fendt, constrói. Essa obsessão pela cultura literária e dialética, é quase uma digressão no tecido da sociedade atual, por isso, são pessoas deslocadas do mundo, no âmbito social. Por isso, um plano disseca bem o que o protagonista, Cal (Calvin Engime), representa como objeto de estudo, no enquadramento vemos o personagem encostado em uma parede, lendo, a luz de seu quarto atravessa da direita para a esquerda, gerando uma deformação na sombra dele. Esse retrato decadente de uma pessoa que acredita compreender a base fundamental da sociedade através de suas leituras, é a maior concepção do pretensiosismo intelectual do homem branco.

Existe uma carga de culpa que paira no filme, como um retrato hipócrita de um personagem que acredita ser superior aos outros, mas que priva seu convívio de relações emocionais e criações que transcendem a discussão metafísica. Por isso, a construção das cenas se dá através de uma falta de solidez na encenação, pois, por trás do ego, está apenas uma pessoa que se defende de suas inseguranças com uma falta figura de autoconfiança calcada nas suas horas de dedicação ao conhecimento. Afinal, não é essa a história da presunção do homem branco? Um compilado de frustrações e desejos reprimidos que são convertidos em agressividade e mutilação cultural. No caso, o protagonista não é um etnocida, porém, carrega em si uma toxicidade imensa que contamina seu convívio social através de um intenso desejo de adoração, uma vaidade semi divina. Perdão a polêmica.

Sem dúvida, Ted, alcança muitas discussões em seu filme. Não porque ele decide aprofundar nestas questões, mas porque ele permite que o público anseie por mais perguntas. Por isso, é um projeto que não agradará muitas pessoas, pois, é necessário que seja firmado um pacto estreito com o diretor, de ajudar a pensar algumas questões intrínsecas à natureza humana, em um grupo que, praticamente, nega a vida contemporânea e decide viver num estado de solidão, ainda que aceitem esta solitude como parte do processo de vida deles.

Evelyn (Evelyn Emile), a única mulher do filme, a que lê mais poesia, protagoniza a única cena dramática, onde discute com Cal sobre sua presunção e como ele afeta as relações ao seu redor com seu comportamento. Eve é a que possui maiores incertezas, isso porque, ela permite que suas dúvidas pueris se manifestem, sem reprimi-las. Com isso, ela é a personagem mais próxima da realidade. Ela discute seus problemas pessoais com as pessoas e as escuta. O que Cal é incapaz de fazer.

“Classical Period” é sobre paixão, método e dedicação, mas contém nuances complexas em sua forma. Seus 62 minutos, passam voando. Por um resultado de diálogo e investimento próprio. É moderno em sua linguagem e clássico em seu conteúdo, a opção do Super 16mm foi precisa, remetendo a uma conscientização do material fílmico e do processo de pensamento do fazer cinematográfico. Usa como âncora o formalismo, quase estruturalista, para dissecar seus personagens e expô-los. Como dito anteriormente, o sucesso do longa está no quão estranho soa a misancene, propositalmente, é desconfortável assistir Cal divagando por sete minutos sobre história americana, num longo monólogo, câmera estática. Ao fim da cena, o outro personagem responde meio indiferente “Hm… Entendi”. Como parte da cobertura do Cine BH, foi gratificante ver um projeto como este tendo espaço na Mostra. Uma pena que, possivelmente, não terá espaço nas salas de cinema aqui no Brasil.

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