Um Lobo em Pele de Cordeiro

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília de Cinema Brasileiro 2017


Exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro do ano passado, o novo filme de Marcelo Pedroso, “Por Trás da Linha de Escudos”, causou polêmica e desconforto, até mais que “Vazante”, de Daniela Thomas, por se posicionar na linha de frente do conceito que objetivava criticar. Seu diretor é um ferrenho crítico de nossa sociedade e já abordou importantes premissas em “Pacific” e “Brasil S/A”.

É uma pena que o público (principalmente a crítica) não tenha entendido o afiado tom sarcástico à moda estrutural dos documentários do americano Michael Moore. Marcelo adentra o “covil” de policiais militares a fim de participar das operações de rotina e até mesmo de treinamentos com a equipe responsável por atuar na repressão à manifestações e protestos da população.

Ao acompanha o dia a dia do Batalhão de Choque da Polícia Militar de Pernambuco, o diretor, sem impor julgamentos diretos e explícitos (por medo de represália), busca entender as técnicas, as motivações e as adrenalinas dos pré e pós combates.

“Por Trás da Linha de Escudos” é um filme que expulsa, completamente, nós espectadores, e indivíduos sociais, de nossas zonas de conforto, confrontando um questionamento tabu. Somos obrigados a pensar diferente de nossas ideologias, colocando-se no lugar do outro como uma experiência metafísica de permissão. E sim, contrastar defesas com a maturidade de ouvir a voz do “inimigo”, que deveria proteger e não atacar populações indefesas. Já cantava o grupo Titãs: “Polícia para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia”.

O desconforto foi quase unânime. E assim como a diretora paulista, o pernambucano também foi acuado na coletiva de imprensa com flechas, bombas e verborrágicos tiros (mas manteve uma calma quase psicopata – talvez por fazer Ioga já tantos anos). Não perdeu o humor ácido (quase oportunamente ingênuo) em momento algum. Isto ocorreu talvez pelo sentimento politicamente correto de “gigante acordado”, que gera tensão nos tempos modernos: Donald Trump na presidência dos Estados Unidos e a quase vitória do presidenciável Jair Bolsonaro, um militar a favor do porte de armas.

“Por Trás da Linha de Escudos” é também uma obra de sutilezas, de subtextos à moda de Harold Pinter. É um estudo antropológico que analisa o ser humano enquanto representante do povo. O impacto foi tamanho que o filme foi o escolhido ao Troféu Vertentes do Cinema como melhor filme do festival

Nosso site justificou que o prêmio era “Pela liberdade política, pela estética polêmica e corajosa, pela implementação de inovar o discurso, pela sinestesia paralela ocasionada, pela elucubração humanitária em ouvir o outro lado, pela tolerância das ideias contrárias, pela majestosa e definitiva maestria em desconstruir a pretensão do pensar, pela concretude da realização de um estudo antropológico social, pela decisão de sair do senso comum e da zona de conforto, pela loucura de se tornar parte do inimigo para assim entender a própria ideologia”.

Sim. É um filme corajoso. Manipulador e oportunista, lógico. Todo discurso é pautado na conceituação imagética. No simbolismo filosófico com seus personagens da nossa sociedade em bonecos de bairro . Com sua narração poetizada, descreve, por exemplos, os mínimos detalhes da bandeira do Brasil (e lesmas que lentamente andam pela representação máxima de um país). “É um processo de descoberta como filmar a polícia e a polícia ser filmada”, diz.

É incrível como nos dias de hoje, o óbvio tornou-se regra, precisando ser mastigado e ofertado como produto industrial, e cada vez mitigando mais a sacada espirituosa. O riso picardia perde campo ao radicalismo da importância militante dos temas defendidos. Marcelo adentra em uma mentalidade massificada por anos e condutas. Que quanto mais repetidas, mais naturalizadas e normalizadas.

“Por Trás da Linha de Escudos” deixa que o espectador tire suas conclusões com a riqueza de explicações e contradições captadas. Percebemos o poder militar versus a vulnerabilidade de seus protestantes. Ouvimos com atenção a quantidade de munições que cada um profissional da segurança pública sai. As incertezas, surpresas e a manutenção do controle emocional. Não há como não lembrarmos do documentário “Rio do Medo”, de Ernesto Rodrigues, que reflete que “a polícia não existe para estabelecer o paraíso, mas para evitar que o inferno se instale”.

Marcelo não se “intimida” (“enfrentando pela porta de frente”) e conta à corporação (que tem como propósito “estabelecer a ordem pública”) que dois anos antes foi um dos militantes contra a desapropriação da comunidade Vila Estelita. E que recebeu bala de borracha no meio do protesto. “Como policial achei que fosse uma crítica este documentário quando vi você no batalhão”, responde como “braço do Estado”. As perguntas ganham proporções de confronto.

É uma conversa. Como olhar para um manifestante “baderneiro”. O spray de pimenta. O discurso de defesa. Segue também pelas formalidades cerimoniais. Pela diversão descanso da peteca. Mais uma vez. Marcelo é um lobo em pele de cordeiro. Ele sem rir deixa o outro “ridículo”, olhando sem expressão julgadora. A câmera tenta traduzir os pensamentos nas expressões dos policiais. É uma luta versus alienação. Ter “colhão”.

Todos são muito simpáticos. Será por causa da câmera que os filma? Para isso, Marcelo precisa participar. Tornar-se um policial. Passar pelo treinamento de sentir o spray de pimenta. De cantar músicas do Choque. De sentir a bomba. “Parece um filme de terror”. De ser “gaiato” encenados igual a eles.

Entende que ser militar é uma opção orgulhosa motivada pelo amor. Pelo querer. Nós nos tornamos a lente da câmera. O que se mostra é direcionado a nós espectadores. É humanizar a “monstruosidade”. Olhar pelo outro lado. “E se nós usarmos as mesmas regras e as armas do batalhão?”. “Quando o corpo não aguenta, a moral sustenta”, diz-se.

“Por Trás da Linha de Escudos” é surreal, e como já foi dito, um universo Michael Moore. É uma ironia. Todo o tempo. Até o colocar o manifestante diante da polícia “pacífica”. Assim como o momento da ioga. E principalmente quando expõe ensinamentos de “ser uma potência”. É, é uma pena. Em tempos modernos, este filme chega a ser uma necessidade. Um instrumento que possibilita absorver dois lados não maniqueístas da moeda. Despolarizar opiniões e entender um pouco mais sobre nossa própria humanidade.

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