Uma existencialista transposição

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2017


Exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2017, o curta-metragem “Torre”, de Nádia Mangolini, busca com o gênero animação (pela técnica aquarela guache) suavizar a dramática carga emocional da história abordada. A narração constrói uma concretista poesia e a romanceada imagem sobrepuja imagem em elipses, advindas dos detalhes das lembranças, como ficar sozinho em uma piscina quebrada, ora monocromática, ora com mais cores.

Vivencia-se uma clandestinidade mais evidente de quatro irmãos, filhos de Virgílio Gomes da Silva, o primeiro desaparecido político da ditadura militar brasileira, contam relatam suas infâncias durante o regime. O filme é uma sensação. Uma etérea epifania que quer resgatar uma pureza, uma inocência perdida e característica das crianças.

Todos estes ingênuos e pequenos personagens acreditam na esperança do “refúgio-fuga para Cuba” e de que o pai “super-herói” ainda está vivo. É também uma libertação. De proteção contra o indesejável. De processo de cura (“matá-lo por dentro, porque sentia raiva pelo abandono”). De desconstrução. De “enterros mentais” à moda de Lacan. Há um que de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger.

É um papel simbólico. Morrer em pedacinhos.“Torre” possibilita a libertação do desmoronamento para que assim se possa reconstruir o real entendimento. Recuperar o amor. A vida. E a vontade de seguir lembrando sem mais esquecer. Esta é a própria comissão da verdade. Interna. Pessoal. Particular. Familiar.

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