A catarse de uma silenciosa realidade

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília de Cinema Brasileiro 2017


Exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasília 2017, o curta-metragem “Tentei”, da diretora Laís Melo, é um estudo de caso das dificuldades de uma mulher que tenta sobreviver dignamente em um mundo hostil e excessivamente machista. Nós espectadores sentimos sua carga dramática e mergulhamos na sinestesia naturalista e realista de seus momentos. É um filme que incomoda, que retira homens e mulheres de suas zonas de conforto. De suas apatias hesitantes De suas impotências submissas. De seus achismos resignados. “Tentei” foi o escolhido ao Troféu Vertentes do Cinema de Melhor Curta-Metragem.

Nossa justificativa: “Pela potência dura, seca, silenciosa e direta do discurso, pela narrativa silenciosa em traduzir a problemática social, pela sinestesia em fazer com que o espectador, de forma cúmplice, experimente na própria pele as dificuldades do agir, pela burocracia comportamental que critica a nós mesmos, pela interpretação irretocável da atriz Patricia Saravy, pelo controle absoluto da direção, pela decisão corajosa de exemplificar com imagens o procedimento policial, pela urgência cadenciada em uma narrativa de equilíbrio sóbrio, pungente e decisivo, pelo discurso de denúncia, pela legitimidade do conceito cinematográfico”.

É um filme sobre a coragem que foi se fazendo aos poucos conforme a angústia tomava o corpo. Em certa manhã, Glória, 34 anos, parte em busca de um lugar para voltar a ser. Em planos contemplativos, o público, próximo, na intimidade silenciosa da cama durante instantes prévias da decisão desta protagonista, participa das motivações da ação. De não mais suportar descasos, violências, abusos e agressões de seu marido. Pelo café, ônibus, a espera, a aproximação quase imperceptível da câmera, ela pensa e aceita que denunciará seu agressor. Na polícia, ela é que precisa provar, e assim fazer o trabalho de quem deveria proteger.

Laís Melo possui completo domínio de sua direção. E de sua impecável e precisa atriz Patricia Saravy. Durante a filme, não conseguimos não referenciar à peça “Por Elas – Até Que A Morte Nos Separe”, de Sílvia Monte, em que constrói um universo terapêutico e confessional desta necessidade que o homem tem de transformar sua esposa em um objeto de posse. Aqui, a personagem principal sofre o medo da represália, a descrença dos policiais homens, a desesperança de outras mulheres que já passaram por isso (e não obtiveram um final feliz).

Mas assim como na peça este filme traz um anjo de guarda. O atendente tolerante e compreensivo ouve sobre o estupro no casamento, as dores e as limitações. É uma catarse bem parecida com a estrutura cinematográfica dos filmes romenos, que expõe traumas e tragédias sem suavização.

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